terça-feira, novembro 18, 2008

Barragem do Arade – Uma perspectiva histórica e algumas sugestões.


A exploração agrícola ao invés das novas indústrias era um dos cavalos de batalha do Estado Novo que apostava na província como centro de produção capaz de alimentar o país, veja-se o Alentejo que à época foi diversas vezes referido como “o celeiro do país”. A pouca industrialização verificada, à excepção de alguns centros especializados como Portimão e Olhão na indústria conserveira, isto para citar exemplos próximos, cingia-se essencialmente às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
Os concelhos mais interiores do Algarve debatiam-se com dificuldades e no caso de Silves ia-se notando cada vez mais o declínio da indústria corticeira, até então a principal actividade económica do concelho.
Nos anos 40 surgem os primeiros esforços para dinamizar o sector agrícola deste concelho e também dos vizinhos de Lagoa e Portimão, o que vai despoletar em 1944 o lançamento do Programa de Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão e no seu seguimento o projecto de construção da Barragem da Ribeira do Arade, mas a ela voltaremos após nova resenha histórica.
A política de construção de equipamentos e obras públicas foi cedo abraçada pelo Estado Novo, tendo ganho ainda maior expressão após a chegada do oitavo governo em 1932, governo que marca a entrada definitiva de António Oliveira Salazar como chefe de governo e também uma maior estabilidade em relação aos seis anos anteriores de Estado Novo. O impulso inicial desta enorme campanha de obras públicas coincide com o cargo do engenheiro Duarte Pacheco enquanto ministro das obras públicas e comunicações. Portugal tinha uma imensa necessidade de equipamentos e infra-estruturas o que fez que os diversos órgãos que dependiam do Ministério das Obras Públicas e Comunicações (daqui em diante M.O.P.C.) apresentassem projectos e efectuassem construções para tentar suprir essas carências.
Neste caso para satisfazer a ambição do chefe de estado de um país cuja economia tivesse no sector agrícola uma importante fonte de rendimentos e de forma a que este fosse o mais auto-suficiente possível, era essencial a construção de equipamentos como barragens capazes de abastecer amplas zonas de regadio e se possível produzir energia eléctrica de forma a reduzir o consumo de combustíveis fósseis que tanto pesavam no orçamento do país.
Estas obras para além do seu óbvio carácter funcional detêm uma forte carga simbólica e ideológica, foram projectadas também para deixar marca de “obra feita” pelo Estado Novo, como que monumentos, sendo isso bem patente em barragens como a de Idanha (ou do Ponsul) que ostenta no topo do paredão o escudo do Estado Novo (basicamente a esfera armilar estilizada) de grandes dimensões ou no projecto da Barragem da Ribeira de Santa Catarina/Pego do Altar da autoria do conhecido arquitecto Cassiano Branco. Outras barragens poderiam ser referidas, mas falando de projectos mais modestos como o da Ribeira de Arade, era notado uma menor monumentalidade, logo a “memória” de quem tinha edificado o empreendimento era assinalada por um pilar ou obelisco, como vem referido em projectos da época, em granito onde vem uma mensagem típica do regime vigente rematada no final com o apelido do chefe de estado, mensagem essa que passo a transcrever:

“A rega é considerada magno problema de interesse simultaneamente económico, social e militar que como nenhum outro contribuirá para a valorização do património nacional, para a criação de riqueza pública, para a absorção do nosso excesso demográfico e para o desenvolvimento do comércio interno e externo do país.
Salazar
Voltando ao que nos interessa, o projecto da Barragem da Ribeira do Arade foi sendo desenvolvido entre 1944 e 1951, data em que se inicia a sua construção, projecto este que foi entregue pelo M.O.P.C. à Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola e a construção efectuada pela Sociedade de Empreitadas Moniz da Maia & Vaz Guedes, Lda. (futura Somague). Há que referir que o engenheiro residente da obra foi Rui Alves da Silva Sanches que já acumulava experiência de obras de hidráulica como a barragem do Vale do Gaio e outras obras do Vale do Sado e mesmo acompanhamento de missões nas então colónias portuguesas, tendo mais tarde, em 1968, sido nomeado ministro das obras públicas, cargo que desempenhou até 1974 juntamente com a pasta das comunicações, pois o anterior M.O.P.C. havia sido dividido dando lugar a estes dois ministérios.
A construção deste complexo hidráulico ficou terminada em 1955 mas entrou ao serviço apenas no ano seguinte, sendo esta a data que consta no “obelisco” granítico que indica o empreendedor da obra. Nesse mesmo ano a barragem passa para a tutela da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos (DGHS) que passa a estar incumbida de garantir a manutenção e exploração do empreendimento até à entrega deste à Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão em 1959.
A intenção de aproveitar a paisagem criada pela albufeira da Ribeira de Arade para fins turísticos cedo se fez sentir e com os resultados já conhecidos de estruturas turísticas noutras albufeiras do país, o projecto de criação de uma pousada tornava-se aliciante. Para tal foi colocada a hipótese de adaptar e ampliar o antigo edifício do pessoal de fiscalização da obra, também conhecido como a “Casa do Engenheiro” na altura já a servir de restaurante. Este projecto de 1972 elaborado pelo Arq. Guimarães Pestana incluía também, para além da já falada reformulação do edifício existente, a criação de um bloco para o pessoal e serviços de apoio, assim como três “células tipo motel” como o autor lhes chamava, que no total perfaziam 12 quartos. Para além das edificações houve a preocupação de definir convenientemente o exterior, como é possível ver no projecto, espaços verdes e até mesmo um pequeno ancoradouro nas margens da albufeira.
Este projecto foi revisto no ano seguinte ainda na forma de estudo e depois declinado, tendo sido em 1974 apresentado pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais um projecto definitivo para uma pousada da autoria do Arq. Jorge Santos Costa e engenheiros Alberto de Lemos Rola, Joaquim Janela Lucas e Carlos Ferraz. Infelizmente não passou para a realidade material e assim a albufeira da Ribeira do Arade nunca teve a sua pousada, que certamente teria sido uma mais valia para a economia local, a verificar pela afluência de pessoas ao local, que ainda hoje, 52 anos após a sua inauguração, é bastante visitada. Este projecto foi um dos vários que não viu seguimento dada a mudança na vigência política e o período convulso que se viveu nos anos seguintes.
O restaurante ainda funcionou até recentemente ter fechado, apesar de tudo e não corresponder ao espaço planeado no projecto abortado do pessoal da Divisão de construção de edifícios da Direcção de serviços de construção da DGEMN, o ambiente era aprazível e sempre havia uma estrutura de apoio aos visitantes da barragem.
Para a fruição destes espaços que por norma são algo isolados é sempre aconselhável existir uma estrutura de apoio que se possuir algum tipo de informação histórica ainda enriquece mais a visita. A colocação de sinalética e placas explicativas, assim como eventuais visitas guiadas, é algo que se torna cada vez mais premente realizar neste tipo de património “moderno” e convém não esquecer que quanto mais cedo a população em geral e os turistas tomarem consciência do valor destes empreendimentos, mais fácil se tornará a valorização enquanto património cultural do interesse de todos, não só pela função que ainda continua a cumprir, mas sim como marco de uma época que apesar de ainda recente, é conveniente começar a ser melhor estudada e divulgada no campo do Património Cultural.


Artigo originalmente publicado no jornal Edição Especial nº 35 de 14 de Novembro de 2008