quarta-feira, dezembro 17, 2008

O edifício do antigo posto de turismo em Silves, uma abordagem.


Anónimo para a população e reconhecido como original no contexto silvense nas obras relativas à arquitectura no Algarve, é nesta dualidade que vive o edifício que até há bem pouco tempo albergou o posto de turismo da RTA em Silves, e que agora destituído das suas funções, espero que seja reaproveitado em breve para alguma actividade, seja ela de serviços ou comercial.
-Porquê a abordagem ao edifício do antigo posto de turismo?
-Não vejo nada nele… não tem nada de especial!
Quando disse a algumas pessoas que iria escrever sobre ele foi o que ouvi delas.
Em primeira instância e como já disse anteriormente é a meu ver necessário arranjar, e brevemente, resposta para colmatar a mudança do serviço que este prestou durante vários anos para um edifício mais apropriado e melhor localizado. Mas temos que ter em conta que um imóvel que se vê privado de funções está mais rapidamente sujeito a degradação ou mesmo acidentes provocados por falta de manutenção das instalações eléctricas ou canalizações, na sua maioria já antigas.
O mais curioso é o anonimato, já referido, deste edifício no contexto do casco urbano silvense, talvez seja incompreensão que venha da época da sua construção, nas primeiras décadas do século XX, pois nesta cidade manteve-se até muito tarde um grande conservadorismo no que toca à construção e raros são os edifícios que se demarcam dos demais com soluções modernizantes, que acompanhem, nem que seja a título decorativo, as tendências arquitectónicas importadas do exterior ou mesmo das grandes cidades portuguesas onde era mais fácil (ainda que de modo limitado) chegar as ideias de vanguarda.
O edifício do turismo, possivelmente construído nos anos 30 do século passado, é um destes casos, quanto mais não seja nas soluções decorativas e de demarcação de pisos, que adopta uma estética evocativa do estilo Art Déco, tal é patente na decoração entre o piso térreo e o primeiro andar com o jogo de triângulos, as barras que percorrem todo o imóvel, em especial a que se encontra sobre a janela do primeiro piso, com “caneluras”. De notar também a chaminé, que joga com motivos geométricos e “caneluras” e o trabalho de massa acima da porta da habitação na Rua Bernardo Marques.
Comparando com os edifícios anexos denota-se uma postura mais cosmopolita e menos “tradicional”, tanto a nível decorativo como a nível de aproveitamento do pequeno espaço que o imóvel ocupa, jogando desta forma com o aproveitamento na vertical, reforçado visualmente pela sua pouca largura.
Em suma, uma peça arquitectónica que apesar de recente necessita de ser valorizada e porque não integrada em estudos de arquitectura, à semelhança do já efectuado por José Manuel Fernandes e Ana Janeiro, A Arquitectura no Algarve: Dos primórdios à actualidade, uma leitura de síntese, onde o imóvel em questão é referido, ou em obras dedicadas à Art Déco no Algarve, ou ainda quem sabe, um estudo monográfico dedicado ao edifício do turismo.
Os testemunhos arquitectónicos do século XX necessitam de tanta atenção quanto os mais antigos, felizmente esse sentimento tem crescido nos últimos anos, mas o levantamento e a inventariação ou mesmo a classificação são fundamentais e devem ser utilizados como ferramentas para a sua salvaguarda e memória futura.


Artigo originalmente publicado no jornal Terra Ruiva nº 96 de Dezembro de 2008.

terça-feira, novembro 18, 2008

Barragem do Arade – Uma perspectiva histórica e algumas sugestões.


A exploração agrícola ao invés das novas indústrias era um dos cavalos de batalha do Estado Novo que apostava na província como centro de produção capaz de alimentar o país, veja-se o Alentejo que à época foi diversas vezes referido como “o celeiro do país”. A pouca industrialização verificada, à excepção de alguns centros especializados como Portimão e Olhão na indústria conserveira, isto para citar exemplos próximos, cingia-se essencialmente às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
Os concelhos mais interiores do Algarve debatiam-se com dificuldades e no caso de Silves ia-se notando cada vez mais o declínio da indústria corticeira, até então a principal actividade económica do concelho.
Nos anos 40 surgem os primeiros esforços para dinamizar o sector agrícola deste concelho e também dos vizinhos de Lagoa e Portimão, o que vai despoletar em 1944 o lançamento do Programa de Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão e no seu seguimento o projecto de construção da Barragem da Ribeira do Arade, mas a ela voltaremos após nova resenha histórica.
A política de construção de equipamentos e obras públicas foi cedo abraçada pelo Estado Novo, tendo ganho ainda maior expressão após a chegada do oitavo governo em 1932, governo que marca a entrada definitiva de António Oliveira Salazar como chefe de governo e também uma maior estabilidade em relação aos seis anos anteriores de Estado Novo. O impulso inicial desta enorme campanha de obras públicas coincide com o cargo do engenheiro Duarte Pacheco enquanto ministro das obras públicas e comunicações. Portugal tinha uma imensa necessidade de equipamentos e infra-estruturas o que fez que os diversos órgãos que dependiam do Ministério das Obras Públicas e Comunicações (daqui em diante M.O.P.C.) apresentassem projectos e efectuassem construções para tentar suprir essas carências.
Neste caso para satisfazer a ambição do chefe de estado de um país cuja economia tivesse no sector agrícola uma importante fonte de rendimentos e de forma a que este fosse o mais auto-suficiente possível, era essencial a construção de equipamentos como barragens capazes de abastecer amplas zonas de regadio e se possível produzir energia eléctrica de forma a reduzir o consumo de combustíveis fósseis que tanto pesavam no orçamento do país.
Estas obras para além do seu óbvio carácter funcional detêm uma forte carga simbólica e ideológica, foram projectadas também para deixar marca de “obra feita” pelo Estado Novo, como que monumentos, sendo isso bem patente em barragens como a de Idanha (ou do Ponsul) que ostenta no topo do paredão o escudo do Estado Novo (basicamente a esfera armilar estilizada) de grandes dimensões ou no projecto da Barragem da Ribeira de Santa Catarina/Pego do Altar da autoria do conhecido arquitecto Cassiano Branco. Outras barragens poderiam ser referidas, mas falando de projectos mais modestos como o da Ribeira de Arade, era notado uma menor monumentalidade, logo a “memória” de quem tinha edificado o empreendimento era assinalada por um pilar ou obelisco, como vem referido em projectos da época, em granito onde vem uma mensagem típica do regime vigente rematada no final com o apelido do chefe de estado, mensagem essa que passo a transcrever:

“A rega é considerada magno problema de interesse simultaneamente económico, social e militar que como nenhum outro contribuirá para a valorização do património nacional, para a criação de riqueza pública, para a absorção do nosso excesso demográfico e para o desenvolvimento do comércio interno e externo do país.
Salazar
Voltando ao que nos interessa, o projecto da Barragem da Ribeira do Arade foi sendo desenvolvido entre 1944 e 1951, data em que se inicia a sua construção, projecto este que foi entregue pelo M.O.P.C. à Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola e a construção efectuada pela Sociedade de Empreitadas Moniz da Maia & Vaz Guedes, Lda. (futura Somague). Há que referir que o engenheiro residente da obra foi Rui Alves da Silva Sanches que já acumulava experiência de obras de hidráulica como a barragem do Vale do Gaio e outras obras do Vale do Sado e mesmo acompanhamento de missões nas então colónias portuguesas, tendo mais tarde, em 1968, sido nomeado ministro das obras públicas, cargo que desempenhou até 1974 juntamente com a pasta das comunicações, pois o anterior M.O.P.C. havia sido dividido dando lugar a estes dois ministérios.
A construção deste complexo hidráulico ficou terminada em 1955 mas entrou ao serviço apenas no ano seguinte, sendo esta a data que consta no “obelisco” granítico que indica o empreendedor da obra. Nesse mesmo ano a barragem passa para a tutela da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos (DGHS) que passa a estar incumbida de garantir a manutenção e exploração do empreendimento até à entrega deste à Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão em 1959.
A intenção de aproveitar a paisagem criada pela albufeira da Ribeira de Arade para fins turísticos cedo se fez sentir e com os resultados já conhecidos de estruturas turísticas noutras albufeiras do país, o projecto de criação de uma pousada tornava-se aliciante. Para tal foi colocada a hipótese de adaptar e ampliar o antigo edifício do pessoal de fiscalização da obra, também conhecido como a “Casa do Engenheiro” na altura já a servir de restaurante. Este projecto de 1972 elaborado pelo Arq. Guimarães Pestana incluía também, para além da já falada reformulação do edifício existente, a criação de um bloco para o pessoal e serviços de apoio, assim como três “células tipo motel” como o autor lhes chamava, que no total perfaziam 12 quartos. Para além das edificações houve a preocupação de definir convenientemente o exterior, como é possível ver no projecto, espaços verdes e até mesmo um pequeno ancoradouro nas margens da albufeira.
Este projecto foi revisto no ano seguinte ainda na forma de estudo e depois declinado, tendo sido em 1974 apresentado pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais um projecto definitivo para uma pousada da autoria do Arq. Jorge Santos Costa e engenheiros Alberto de Lemos Rola, Joaquim Janela Lucas e Carlos Ferraz. Infelizmente não passou para a realidade material e assim a albufeira da Ribeira do Arade nunca teve a sua pousada, que certamente teria sido uma mais valia para a economia local, a verificar pela afluência de pessoas ao local, que ainda hoje, 52 anos após a sua inauguração, é bastante visitada. Este projecto foi um dos vários que não viu seguimento dada a mudança na vigência política e o período convulso que se viveu nos anos seguintes.
O restaurante ainda funcionou até recentemente ter fechado, apesar de tudo e não corresponder ao espaço planeado no projecto abortado do pessoal da Divisão de construção de edifícios da Direcção de serviços de construção da DGEMN, o ambiente era aprazível e sempre havia uma estrutura de apoio aos visitantes da barragem.
Para a fruição destes espaços que por norma são algo isolados é sempre aconselhável existir uma estrutura de apoio que se possuir algum tipo de informação histórica ainda enriquece mais a visita. A colocação de sinalética e placas explicativas, assim como eventuais visitas guiadas, é algo que se torna cada vez mais premente realizar neste tipo de património “moderno” e convém não esquecer que quanto mais cedo a população em geral e os turistas tomarem consciência do valor destes empreendimentos, mais fácil se tornará a valorização enquanto património cultural do interesse de todos, não só pela função que ainda continua a cumprir, mas sim como marco de uma época que apesar de ainda recente, é conveniente começar a ser melhor estudada e divulgada no campo do Património Cultural.


Artigo originalmente publicado no jornal Edição Especial nº 35 de 14 de Novembro de 2008

quinta-feira, julho 10, 2008

O Casino de Armação de Pêra- Um possível ponto de partida para repensar a vila?


No ano do quinquagésimo aniversário da inauguração do edifício do antigo casino de Armação de Pêra deparamo-nos com uma situação que se pode considerar delicada, pelo estado em que se encontra o imóvel. Mas antes de tudo começo com uma breve contextualização histórica que aponta algumas situações que condicionaram a construção do casino e outros equipamentos turísticos. Portugal para além de encantar os seus visitantes desde há séculos, quer pelas suas condições climatéricas como pela sua beleza e riqueza natural e cultural, assumiu durante o período da II Grande Guerra um interessante papel a nível internacional, pois apesar da sua posição neutral, foi teatro de muitas movimentações, desde espionagem, ponto de passagem de refugiados e exilados para o outro lado do Atlântico, palco de negociações, entre muitos outros factores, o que levou a que inúmeros visitantes estrangeiros permanecessem no país nem que fosse temporariamente. Já após a guerra apesar do país se manter algo fechado ao exterior, chegando mesmo a recusar ajudas de fomento económico vindas de fora, deu-se um crescente interesse turístico, obrigando o governo a “ceder” um pouco aos assédios vindos de outros países. O órgão de propaganda e informação do governo de Salazar, primeiro Secretariado de Propaganda Nacional, mais tarde Secretariado Nacional de Informação, Turismo e Cultura Popular, numa política de passar uma imagem dum Portugal mais positivo e turístico desafiou vários artistas de nomeada a nível nacional a elaborar cartazes e anúncios turísticos que frisassem os aspectos mais marcantes das várias regiões do país. Outra das maneiras de tornar o Portugal governado por Salazar atractivo aos olhos de turistas estrangeiros passava por convidar grandes nomes da cultura europeia e mundial a desfrutar de uns dias no país, anunciando depois na imprensa que determinada personalidade tinha passado férias cá, claro está que vários convites foram recusados por parte de pessoas informadas e que se opunham ao regime vigente.

É neste ambiente que surgem vários programas para dotar algumas regiões de equipamentos capazes de albergar e entreter os turistas endinheirados, estando, claro está, incluídos casinos na orla litoral. Armação de Pêra foi uma das localidades em que foi criado um novo edifício para albergar um casino moderno e atraente aos turistas, assim como uma série de obras de beneficiação para tornar a povoação mais visitável e acolhedora ao visitante.

Inaugurado em 1958 o edifício do casino de Armação de Pêra, possuía uma arquitectura que o distinguia dos demais edifícios da localidade, estando numa localização privilegiada, dominando a vista sobre a praia, com uma “varanda” aberta para o mar, este também possivelmente bastante visível do interior, pois o prédio aparenta ter estado dotado de uma ampla superfície vidrada voltada ao Oceano, da qual ainda se conserva um troço, estando actualmente grande parte entaipado. A rigidez e solenidade da fachada que dá para a avenida é o contraponto da dinâmica e curva parede que se encontra voltada para a praia, o espaço exterior como atrás referi oferecia também uma vista privilegiada para a baía.

Passando de novo para o presente, é de lamentar o estado em que o edifício e a sua envolvente se encontram, oferecendo poucas condições para os eventos que lá se realizam e também para o posto de turismo, este último com obras agendadas pela RTA, que espero que valorizem a arquitectura original do edifício e não contribuam mais para a sua descaracterização. A “frente marítima” está basicamente ao abandono e com um aspecto de degradação nada convidativo.

Se houvesse um projecto/programa de valorização deste imóvel bem estruturado numa perspectiva de trazer novos e melhores conteúdos à vila, que incluíssem uma recuperação geral do edifício poderia, quem sabe, ser um primeiro passo para a revitalização cultural de Armação de Pêra, cuja oferta cultural é praticamente inexistente apesar da afluência de vários milhares de turistas todos os anos. Aquele “miradouro” poderia, por exemplo, ser facilmente convertido num dos espaços mais agradáveis da vila, como certamente o foi no passado, podendo-se realizar performances artísticas e actuações ao vivo, ou simplesmente para ser usado numa contemplação da orla marítima, mas num ambiente com qualidade. A intervenção e valorização do antigo casino podia, uma vez mais, ser o primeiro passo para repensar Armação de Pêra, pois a fórmula “Sol e Praia” está esgotada e os turistas, cada vez mais exigentes, procuram novos conteúdos culturais e uma oferta de qualidade. A transformação deste edifício num “centro cultural” de Armação de Pêra seria uma aposta interessante e que traria benefícios a todos, edifício incluído.

terça-feira, junho 10, 2008

Falhas na Promoção Cultural do Concelho.

Ao consultar o sítio oficial da Câmara Municipal de Silves na Internet, vendo as suas várias secções em busca de novidades deparei-me com uma situação que acho inadmissível e desrespeitosa para com as várias freguesias que compõem o concelho de Silves.

A sub-secção Monumentos, contida no interior da secção Cultura, apresenta apenas património edificado e arqueológico situado no casco urbano da cidade de Silves e suas cercanias como é o caso da arruinada igreja de S. Pedro. Agora questiono, o que é feito do conjunto menírico de Gregórios/Velarinha, das várias igrejas e ermidas de São Marcos da Serra, Pêra, Alcantarilha ou S. B. Messines, os vestígios da Fortaleza de Armação de Pêra, entre muitos outros?

Sendo a Câmara Municipal de Silves o órgão político com maiores responsabilidades para com o concelho e que deve zelar pela divulgação do seu Património Cultural, esta situação devia ser revista quanto antes, pois o número de monumentos apresentados para além de estar restrito à cidade de Silves, não revela nem sequer um terço das potencialidades a nível do património cultural do concelho, subvalorizando desta forma as restantes freguesias.

A promoção cultural de todo o concelho vê-se assim comprometida e muito incompleta abrindo pouco os horizontes ao internauta que quer saber mais sobre este. As entradas devem ser também acompanhadas de imagens que elucidem o visitante do que se trata e aguce a sua curiosidade para que concretize uma visita real ao sítio. As bases de dados, disponíveis na Internet, do IGESPAR e do IHRU podem ser uma boa base de trabalho para a actualização e enriquecimento da lista de monumentos do concelho.

Não podemos pensar apenas nos visitantes a nível turístico, mas também nos estudantes do concelho que poderiam ter no site da Câmara Municipal de Silves um bom ponto de partida para o desenvolvimento de trabalhos nas disciplinas de História e História da Arte, quanto mais não fosse para “reconhecimento de terreno”, saber o que realmente há no concelho e uma breve descrição acompanhada de imagens, como é possível ver nalguns sítios da Internet, como por exemplo, o do Município de Grândola entre muitos outros.

Aguardo com expectativa uma melhoria neste campo de modo a que todos conheçam o potencial do concelho e que se faça jus ao slogan “Silves, Uma história interminável”.

terça-feira, abril 08, 2008

O Menir Tombado dos Abrutiais






Este monumento megalítico encontra-se tombado e algo entregue à sua própria sorte há já vários anos. Movido do seu local de implantação original o menir dos Abrutiais ou Abrotiais, como aparece referido nalguns sítios, jaz anónimo no território e de certa forma mais desprotegido que os seus congéneres do conjunto Gregórios/Velarinha recentemente valorizados numa acção de louvar resultante da parceria entre a associação de desenvolvimento local In Loco e a autarquia silvense.

Em situações destas, como a do monumento megalítico dos Abrutiais, é difícil escolher uma solução consensual, mas a actual condição exige, de certa forma, uma rápida tomada de decisão. A implantação no local onde se encontra tombado, mesmo não sendo a localização original? Perderia bastante sentido, pois o seu local de implantação não foi certamente escolhido pelas comunidades pré-históricas de forma aleatória, teria um significado e dominaria a paisagem, o que não aconteceria se fosse colocado onde está. Outra hipótese seria a inclusão num projecto museológico, novo ou mesmo no Museu Municipal de Arqueologia de Silves. Não é que goste, mas talvez fosse uma boa solução de compromisso entre a salvaguarda/preservação, mas continua o irremediável problema da descontextualização.

Estas temáticas são delicadas, exigindo reflexão e trabalho multi-disciplinar para que se pense da melhor forma o futuro dos muitos vestígios históricos que se encontram ameaçados e pouco estudados como é o caso dos Abrutiais, que apesar de tudo já foi alvo de estudo por Mário Varela Gomes e está contemplado no estudo de impacte ambiental da modernização da linha de caminho de ferro realizado em 2002.

Uma coisa é certa na sua situação actual o concelho de Silves e mais concretamente a freguesia de São Bartolomeu de Messines está a sub-aproveitar um importante motivo de interesse de cariz histórico-cultural. Quando digo isto não me refiro apenas à importância turística , mas sim a uma necessária sensibilização dos locais para que percebam o significado do património que detêm e os benefícios que a sua preservação lhes pode trazer. A educação patrimonial não pode ser de forma alguma descurada, pois só a partir do momento que as pessoas compreendam e se identifiquem com o património cultural é que se cria uma consciência e um certo orgulho, que há sempre um pouco dentro de todos nós, da riqueza cultural da região e do país, aí sim a dignificação e valorização dos bens patrimoniais é exigida de forma mais forte perante os organismos responsáveis.

domingo, janeiro 27, 2008

Alcantarilha- Portas quinhentistas podem ser motivo de interesse turístico


(...) Em Alcantarilha, apesar de pequena povoação, mas mesmo assim muralhada nos finais do século XVI, existe um bom número de portas quinhentistas. Os motivos são muito simples e aproximáveis aos de Lagos. Surge aqui um exemplar menos vulgar, com cantarias de arestas limadas e curiosa figuração humana. (...)

Manuel Francisco Castelo Ramos, Decoração Arquitectónica Manuelina na Região de Silves (Séculos XV- XVI) in Xelb 3, 1996

Há poucos dias, sem saber propriamente onde ir e após ter lido o artigo do qual citei o excerto apresentado, lembrei-me de fazer um percurso da arquitectura civil manuelina em Alcantarilha, tendo como principal objectivo conhecer melhor e in loco esta realidade do nosso património cultural naquela vila do concelho de Silves, tendo claro como principal ponto de curiosidade a cantaria descrita por Manuel Ramos naquele artigo.
Apesar de adaptada a um estilo de vida actual, a casa onde está inserida esta cantaria chama a atenção pela peculiaridade do vão e ombreiras da sua porta, apresentando motivos e técnicas menos comuns no modo de lavrar a pedra na arquitectura civil manuelina que sobreviveu até aos nossos dias. As pequenas figurações nas bases das ombreiras são também curiosas, pequenos rostos com um corpo esguio “apertados” entre enrolamentos, assim como o motivo central do vão, apresentando este apenas o rosto ladeado de outros motivos. Esta solução arquitectónica bem que poderia ser mais um motivo de interesse turístico de Alcantarilha, assim como os outros vãos manuelinos existentes na vila, proporcionando passeios temáticos onde pudesse ser mostrado o património edificado da vila, dando especial ênfase ao conjunto tardo-medieval e vestígios das muralhas, ainda é possível perceber o núcleo muralhado da vila pela sua fisionomia, algo muito perceptível numa deambulação a pé pelas ruas.
A realização, ainda que esporádica, de passeios temáticos acompanhado por um especialista convidado para o efeito é uma das formas de promover o património cultural de uma localidade, e tem sido aplicado com sucesso em vários centros históricos do nosso país com excelentes resultados, desde que também exista uma divulgação eficaz.
A criação e renovação da imagem turística da vila poderá passar também pela divulgação a nível gráfico destes pontos de interesse histórico menos conhecidos, podendo despertar a curiosidade de novos públicos interessados noutras vertentes menos vistas do nosso património cultural.
É necessário dar ênfase a aspectos peculiares por vezes presentes na arquitectura civil, pois a história não é feita apenas de grandes edifícios, na sua maioria de características militares ou religiosas, mas sim por tudo o que compõe os nossos núcleos habitacionais.

Foto: Susana Martins.

Artigo originalmente publicado no Terra Ruiva nº 86 de Janeiro de 2008.