quinta-feira, julho 25, 2013

Mercados Municipais: Locais de saberes e experiências.


Para além do abastecimento dos centros urbanos com produtos hortícolas e piscícolas frescos, os mercados municipais desde sempre se assumiram como um importante ponto de confluência e comunicação entre as gentes das vilas ou cidades e aqueles que se deslocavam dos campos, do barrocal ou que desciam as serras. Assim, mais do que locais de comércio, rapidamente se tornaram espaços de convivência, de troca de informações e experiências. Nos mercados, ainda hoje se fala um pouco de tudo, das novidades, das colheitas, enfim de todos os aspectos da vida quotidiana das comunidades.
Apesar da passagem dos anos, com todas as mudanças sociais e culturais que entretanto se verificaram, estes espaços apresentam ainda uma vitalidade notável. No entanto nem sempre as pessoas se apercebem da importância patrimonial dos locais que albergam a actividade comercial, que vai muito para além da simples venda de produtos. Quando se fala do valor patrimonial não nos referimos apenas ao físico e visível, que é muitas vezes interessante, mas sim a tudo aquilo que resulta do encontro das pessoas. Neste âmbito deve salientar-se a troca de informações várias sobre a região e os seus habitantes, ou a partilha de conhecimentos relativos às colheitas, aos atributos de cada planta e a mezinhas ou receitas caseiras para os mais diversos fins. Em suma, a todo um conjunto de aspectos que se identificam com a vertente imaterial do património, e que se revelam sobretudo nos hábitos e comportamentos dos seus protagonistas. Tudo isto constituí uma rica panóplia de temas que podem ser identificados, registados e estudados, tendo em vista a preservação e divulgação daquilo que caracteriza os valores e identidades locais.
De facto, o “ir à praça” está enraizado nos costumes da população e tem vindo a atrair novos adeptos entre os vários estratos etários dos residentes em meios urbanos, factores que justificam uma homenagem a este património comunitário, em toda a sua dimensão. A atenção que este tema merece tem vindo a aumentar nos últimos anos, todavia alguns mercados municipais carecem ainda de estudos de património que, a par do edificado (por vezes exuberante) contemplem uma abordagem de carácter antropológico permitindo traçar um quadro mais completo desses espaços. Como resposta a uma necessidade premente encontra-se em fase de desenvolvimento um projecto de estudo que incidirá sobre alguns mercados da região, pretendendo ser um garante de salvaguarda de parte das suas memórias.

quinta-feira, junho 21, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- Os Trabalhos de Massa




A arquitectura passa invariavelmente por um processo de transferência de influências do círculo erudito para a habitação popular, e isto reflecte-se a nível decorativo, de soluções arquitectónicas e selecção de materiais. Tal processo aconteceu também com os chamados “trabalhos de massa” ou técnica de ornatos de alto e baixo relevo.
Nos finais do século XIX, inícios do XX vulgarizou-se e passou a figurar no conjunto de soluções da arquitectura vernácula, especialmente nos meios urbanos do Algarve central, embora existam vários exemplares em meio rural ou deslocados deste enquadramento geográfico, o que não torna esta delimitação e espaço temporal uma regra.
Alguns dos trabalhos em massa mais notáveis conhecidos no Algarve estão em Faro ou nos seus arredores, refiro-me à Horta do Ourives, ao celeiro da Cerca de S. Francisco ou à Igreja da Ordem Terceira do Carmo, todos exemplares de arquitectura nobre e religiosa de Setecentos. Há ainda que referir os solares das áreas peri-urbanas ou mesmo rurais como, por exemplo, a “Quinta dos Macacos” actualmente fronteira à Estrada Nacional 125 ou mesmo outras nas proximidades de Tavira. Após este período a técnica foi-se vulgarizando passando dos estratos superiores da sociedade para a burguesia até finalmente se inserir no repertório da arquitectura popular, cujo caso mais paradigmático são as conhecidas casas com platibanda ornada, mas podem, a título de exemplo, verificar-se também nos vãos de portas e janelas e socos das casas. À medida que o uso desta solução se expandiu a procura pela cantaria foi também diminuindo, vendo-se em muitas situações substituída pelos ornatos em baixo relevo.
Incontornável na nossa construção tradicional a cal é a matéria-prima predominante das argamassas utilizadas para a execução dos trabalhos de massa, e quando misturada com diversos outros materiais permite uma grande variedade de acabamentos. Materiais esses que podem ir da areia, ao pó de pedra , “baguinho da ribeira”, pigmentos naturais entre outros.
Após a fachada preparada e a argamassa para os ornatos pronta, a execução da técnica conta diversas vezes com o apoio de moldes para assegurar as formas desejadas. A remoção dos excessos de massa e acrescento noutros lados fazem parte deste trabalho que apoiado nos moldes se vai compondo à medida que é trabalhada.
A opção pela massa em vez da cantaria na arquitectura popular esteve ligada à diminuição de custos, mas também às possibilidades que esta solução permite pela sua plasticidade, o que no calcário da região implicaria em muitos casos um maior grau de dificuldade na execução, e consequentemente maior mestria e mão de obra. A preparação da cantaria é muito mais onerosa pois passa por um maior número de processos e é mais exigente no transporte que a sua alternativa, a cal que está presente de início na grande maioria das obras, para a realização das argamassas que são feitas conforme o uso pretendido.
A “democratização” desta solução trouxe uma abertura à criatividade dos proprietários e mestres, e passaram a estar mesclados motivos de influência erudita com outros do quotidiano ou imaginário popular. A decoração assume ainda mais um papel de personalização e dignificação das moradias, que mais ou menos modestas se diferenciavam umas das outras. Em pleno século XX com uma maior difusão e penetração das correntes artísticas é notório nas platibandas e no cimo dos vãos profundas influências do geometrismo da Art-Déco, assim como a diferença na paleta cromática em detrimento da pedra natural.
O estudo, registo e salvaguarda deste tipo de trabalhos ainda não estão suficientemente desenvolvidos, é importante executá-los visto que muitos exemplares degradam-se, ou são substituídos em renovações duvidosas ou demolidos para dar lugar a construções modernas. A utilização dos ornatos em massa é uma das características da arquitectura popular algarvia que merece ser potenciada e divulgada de modo a renovar o interesse pelo tema e também ser motivo de interesse turístico. A criação de linhas de produtos inspirados pelas formas dos trabalhos em massa é já uma realidade que transparece o significado destes para a identidade e imagem regionais, um cartão de visita bem decorado.

Leituras recomendadas:
Fernandes, José Manuel; Janeiro, Ana (2005)
Arquitectura no Algarve - Dos Primórdios à Actualidade, Uma Leitura de Síntese. CCDRAlg / Edições Afrontamento, Lisboa

Fernandes, J. Manuel; Janeiro, Ana (2008).
A Casa Popular do Algarve, espaço rural e urbano, evolução e actualidade. CCDR Algarve/ Ed. Afrontamento, Lisboa

Santos, Marta (2008).
Argamassas e Revestimentos”, in Materiais, sistemas e técnicas de construção tradicional: Contributo para o estudo da arquitectura vernácula da região oriental da Serra do Caldeirão, CCDRAlg/ Edições Afrontamento, s.l., pág. 116

terça-feira, maio 01, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- O Adobe





A transformação da terra em material de construção é já milenar e as técnicas foram-se gradualmente expandindo pelos mais variados pontos do globo, segundo a maior parte dos estudos, a partir da zona a que hoje denominamos Médio Oriente. Uma das mais básicas e antigas formas de processamento da terra para a edificação é a manufactura de tijolos de adobe. Contrariamente ao chamado tijolo burro e aos tijolos cerâmicos de concepção industrial, o tijolo de adobe é seco naturalmente dispensando o uso de fornos. Os materiais necessários à sua produção geralmente estão ao alcance de qualquer um, sendo normalmente extraídos no local de construção, terra/argila, areia. água e palha, surge também referida a utilização de esterco de vaca, cavalo ou burro. Após a obtenção da mistura ideal (cerca de 60/70 % de areia e 30/40% de argila) à qual é acrescentada água para formar o barro que irá secar, é também adicionada a palha que melhorará a resistência à tracção.
Algumas fontes indicam que o barro mais indicado para esta utilização deve ser obtido a cerca de 40/50 cm de profundidade, por à partida estar mais limpo de detritos que as primeiras camadas. Estes elementos são batidos até estarem bem misturados e depois enformados nas adobeiras, formas rectangulares, na sua maioria de madeira onde o tijolo vai ganhar a sua forma até secar. A secagem ao sol dura cerca de oito dias, tendo que ser voltados dois dias depois de enformados. As dimensões médias encontradas no nosso território para os tijolos de adobe são cerca de 40 cm de comprimento por 20 cm de altura e igual largura. Para além das formas simples, o rudimentar rectângulo de madeira, ainda existiam algumas que permitiam a execução de múltiplos tijolos simultaneamente, assim como moldes específicos ou de meio-tijolo. A aplicação desta solução na nossa arquitectura popular, ainda que reduzida, é mais verificada no sul do país, com maior expressão nos distritos de Setúbal e Faro.
Dadas as características do material a sua utilização predominante é na edificação de paredes interiores, onde está mais resguardado dos agentes erosivos. É também aconselhável que a construção de adobe assente sobre alvenaria de pedra com cerca de 60 cm de altura para evitar as humidades ascendentes do solo.
Há algumas décadas existiam ainda pessoas dedicadas ao ofício que se instalavam no local da obra e efectuavam os tijolos onde viriam a ser aplicados. A selecção da matéria-prima depende da disponibilidade do local, mas testemunhos afirmam que os barros brancos permitem a execução de tijolos mais robustos e que ligam melhor, ao passo que os barros mais avermelhados têm tendência, depois da secagem, para ser mais friáveis. A ligação entre tijolos de adobe era muitas vezes garantida por argamassa de barro, que além de garantir um trabalho superior ao cimento ou mesmo argamassa de cal, neste caso, evitava situações de indisponibilidade de material. Pois há várias décadas o cimento ainda não se tinha difundido e nas zonas serranas mais isoladas a cal também não assumiu a importância para a construção que se verificou em grande parte da região sul do país.
Esta solução além de económica face a outras, pois aproveita os materiais disponíveis na área da construção tem também um menor impacte ambiental, por não exigir a queima de materiais combustíveis que os outros tijolos necessitam, não libertando desta forma gases para a atmosfera, reduzindo também o recurso a determinados meios de transporte e máquinas geralmente de consumo elevado e emissoras de grandes quantidades de co2. A construção em terra do ponto de vista térmico é também bastante eficaz filtrando melhor que as alvenarias de betão e tijolo as condições adversas do exterior.
A sobrevivência desta técnica na arquitectura popular até ao século XX é indicador da sua validade enquanto solução construtiva motivada por vezes pela dificuldade de obtenção ou custo de outros materiais de construção ou por razões de economia. A inovação técnica e tecnológica ditou o quase abandono da utilização do adobe, pois os materiais de produção industrial rapidamente se difundiram, ajudados por preços competitivos, rapidez na construção e pelas constantes melhorias das vias de comunicação que garantiram transportes mais regulares e baratos. O entusiasmo pela inovação transformou os hábitos construtivos e nem sempre trouxe melhorias face aos métodos empregues durante séculos. 
Actualmente há um renovado interesse por parte de arquitectos e investigadores. A busca de casas que sejam mais sustentáveis do ponto de vista ecológico encontrou também um determinado tipo de cliente, havendo quem procure casa nova onde sejam empregues este tipo de soluções, por estar comprovada a eficiência térmica e energética. A pegada ecológica é supostamente menor, pois os materiais são na sua maioria locais e deste modo é reduzida a queima de combustíveis fósseis tanto para o fabrico como para o transporte.
Nos últimos anos têm surgido mais publicações e investigação no âmbito da arquitectura popular, o que permite o registo de testemunhos ou mesmo dos processos segundo os métodos tradicionais, despertando assim a curiosidade a um maior número de pessoas, o que certamente ajudará na salvaguarda de alguns exemplares existentes já com uma longa vida de utilização e que por ignorância poderiam estar condenados à demolição num processo de reabilitação do edifício.

Leitura recomendada:
Costa, Alexandre Miguel (2008),
“Adobes, tijolos e tabiques” in Materiais, sistemas e técnicas de construção tradicional: Contributo para o estudo da arquitectura vernácula da região oriental da Serra do Caldeirão, CCDRAlg/ Edições Afrontamento, s.l., pp. 74-77

Sítios web consultados:

Fonte da imagem:
















segunda-feira, março 12, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- O Grés Vermelho






Neste segundo artigo dedicado às soluções e técnicas tradicionais será abordada uma matéria-prima que ao longo dos milénios tem vindo a ser utilizada dada a sua disponibilidade, facilidade de utilização e expressividade cromática.
O arenito ou grés vermelho, também conhecido como grés de Silves, surge na paisagem como uma faixa que se “intromete” entre o calcário, predominante no barrocal, e os xistos característicos do território serrano algarvio, excepção feita à área de sienitos de Monchique. Não querendo enveredar por especificidades geomorfológicas por não ser entendido na matéria, busca-se aqui demonstrar a importância histórica e cultural desta rocha.
As comunidades pré-históricas no seu processo de sedentarização, decorrente do desenvolvimento da agricultura e dos povoados aperceberam-se do impacte visual que esta rocha causa, o que aliado à sua disponibilidade em determinadas áreas, fez com que estas adoptassem o grés de Silves como matéria-prima para os seus alinhamentos de menires, como ainda hoje é possível comprovar nos exemplares dos conjuntos de Gregórios/ Vilarinha ou Abrotiais ou mesmo na edificação de monumentos funerários, como é o caso da Anta da Pedreirinha, não muito longe da Amorosa.
A constante evolução técnica e tecnológica trouxe novas utilizações para a matéria-prima, mas antes temos que referir o interessante aproveitamento das superfícies dos afloramentos para a implantação de necrópoles durante o chamado período visigótico. É possível visitar estes monumentos em percurso marcado na área de Vale Fuzeiros, existindo também semelhantes vestígios, embora de acesso bem mais complicado, próximos da aldeia do Falacho.
A utilização na construção como elemento principal ou então misturado com outros componentes tem sido recorrente quase até aos dias de hoje, podemos ver a sua utilização nas alvenarias, misturada com as argamassas ou em edifícios em taipa ou adobe no embasamento onde assentam as paredes. A um nível mais monumental, mas não esquecendo a função estrutural temos exemplares bem interessantes da utilização do arenito vermelho, como os interiores de algumas igrejas, exemplos da Matriz de Messines, da capela-mor da ermida de Nossa Sra. Dos Mártires ou da cabeceira da Sé De Silves. Aqui nestes três exemplos o estrutural funde-se com os aspectos simbólico e decorativo, talvez se a matéria-prima escolhida fosse outra estes seriam menos emblemáticos.
Para fortalecer a estrutura foi sempre utilizado o aparelho de pedra aliado à taipa para conferir robustez às linhas de muralhas que guardavam Silves, de que hoje só resta a alcáçova, algumas torres e vestígios de muralha, certamente o mesmo se terá passado com outras fortificações no concelho hoje desaparecidas.
Na arquitectura civil e popular tem sido usado para além das utilizações já faladas na construção, mas também para cantarias, pavimentos e degraus. Em Alcantarilha, por exemplo, existem vãos de portas de casas do século XVI executados nesta rocha, ou a conhecida janela no Largo D. Jerónimo Osório em Silves, também da mesma época. Se caminharmos nas ruas mais antigas de encosta em Messines existem alguns exemplares de arquitectura popular, mesmo até do século XX, onde por uma questão de expressividade e certamente disponibilidade se optou pelo material local.
Até meados do século XX era também utilizado nas divisões de terreno para a edificação de valados e muros de contenção na maior parte das vezes sem qualquer tipo de argamassa, apenas sobrepondo as pedras entre si.
A exposição aos elementos naturais, como em qualquer rocha, causa erosão, mas no caso do arenito vermelho dada a sua composição, a rocha, começa a esboroar-se ficando seriamente afectada em poucos séculos. Se atentarmos nas laterais da escadaria da Matriz de Messines, de intervenção barroca (século XVIII) é já bastante notória a acção dos elementos. Esta característica traz preocupações acrescidas de conservação que não podem ser descuradas.
Antes de terminar há ainda que realçar o cariz utilitário desta matéria-prima que, para além da sua utilização na construção, deu origem a pedras de afiar e “rebolos” para uso doméstico e profissional.
Como se pode verificar o Grés de Silves é transversal a todos os períodos de ocupação humana deste território, o que certamente a torna um valor identitário e uma marca cultural que pode muito bem ser explorada. Do ponto de vista geológico ainda atrai a curiosidade de especialistas e interessados na disciplina. A coloração e textura causa também impacto no visitante, que geralmente, aprecia bastante as visitas aos monumentos e percursos arqueológicos dada a singularidade dos objectos visitados. Mais uma vez é um exemplo de um produto autóctone que pode potenciar o interesse cultural na região, e com isto trazer pessoas e receitas que bem são necessárias nos tempos que vivemos. Além da perspectiva financeira temos que pensar do ponto de vista da troca de experiências e saberes que este tipo de dinâmica provoca. A valorização e divulgação deste recurso, fazendo uso de uma identidade própria é também uma hipótese para se demarcar da restante oferta turística e cultural do Algarve. A diferenciação é importante na promoção e tendo nós a possibilidade de a realçar, só temos a ganhar se partilharmos com todos a existência deste bem que nos acompanha desde sempre.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- Os conjuntos de Eirado e Cisterna



 A captação e armazenamento de água para suprir as necessidades a nível de consumo e utilização agrícola desde cedo se tornou uma das preocupações primordiais das populações humanas. Em locais onde a profundidade dos lençóis ou a distância dos cursos de água são significativas tiveram que se criar alternativas para garantir a sua obtenção e fornecimento. Regiões onde por vezes a pluviosidade é irregular, como é o caso do Algarve, têm na água um recurso frequentemente escasso, logo as chuvas têm sido aproveitadas e armazenadas com recurso a cisternas cujas tipologias e formas de captação podem variar. Desde as águas canalizadas dos telhados e açoteias para a cisterna como para o foco deste artigo, os conjuntos de eirado e cisterna.
O eirado,  também denominado por eira de cisterna. Na obra Arquitectura Popular em Portugal surge assim descrito (…) “Se não é suficiente a água recolhida, recorre-se então ao eirado, que consta dum vasto terreiro, ao nível do terreno, revestido com ladrilhos e com declives para encaminhar a água das chuvas para um pequeno orifício, que comunica com o interior da cisterna, de onde será tirada por meio de uma boca semelhante à dos poços.
Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superfície exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraços, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.”
(AAVV, 1988).  É de notar a grande polivalência desta solução que nos meses secos teria uma utilização diversa da que até aqui vimos. Era tapado o orifício de colheita de água, para evitar a entrada de impurezas, e serviria por exemplo para a separação dos cereais da palha e para a secagem, sobre esteiras, de frutos como os conhecidos figos e amêndoas.
A distribuição espacial destes conjuntos eirado/cisterna é mais abrangente que a sugerida pelos autores que fizeram o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa que veio dar origem à obra atrás citada, sendo conhecidos para além das freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines, Tunes e Porches, que os autores apontavam. Já foram identificados exemplares noutros locais entre eles no concelho de Albufeira e mesmo no concelho de Vila do Bispo, conhecendo-se neste último estrutura que  serviria de apoio a uma armação de pesca existente na área. A ideia que se trata de uma prática circunscrita a quintas do barrocal algarvio é assim substituída por outra que alarga a sua distribuição geográfica, ainda que de forma mais pontual, à orla costeira. Teresa Gamito na sua obra O Algarve e o Magreb refere-nos também o caso de Benagil, junto à costa (…) "onde as captações das águas pluviais se faziam não só através dos telhados como também de grandes eirados em encosta, escavados na rocha e que gozavam do mesmo tratamento de purificação e limpeza. (Gamito, 2007).
A cal assume como é notório um papel importante na construção, manutenção e limpeza destas estruturas, pois este material para além da produção de argamassas com bom efeito de estanquicidade e reguladora da acidez das águas. A frescura e purificação dependiam também desta matéria que oferece efeito desinfectante tendo uma cisterna para ser bem mantida que ser limpa e caiada pelo menos de dois em dois anos (idem). Testemunhos revelaram que era prática deitar cal viva ainda em pedra para o interior e deixar esta ferver e dissolver-se na água para purificar. Ainda a nível da construção era comum aproveitar-se a terra proveniente da escavação da cisterna para a taipa na edificação das casas.
Ainda pouco explorados do ponto de vista do interesse patrimonial e identitário os conjuntos de eirado e cisterna representam uma herança de séculos e durante muito tempo, anteriormente à generalização das redes de abastecimento de água, a única alternativa para garantir aquele líquido vital. A chegada das redes de canalização e esgotos aliadas ao declínio agrícola e consequente transição da população para os núcleos urbanos, depressa fizeram esquecer a importância destas estruturas. Os eirados conferem uma aparência distinta às propriedades onde se encontram e é normal encontrar alguns exemplares onde nos muretes eram moldados bancos para permitir o repouso naquela zona muitas vezes fronteira à casa. Além de embelezar era dada mais uma utilização ao espaço transformando-o uma zona de fresco. Do ponto de vista turístico e de investigação temos um objecto etnográfico de interesse que permaneceu praticamente imutável durante séculos e teve a sua utilização em pleno até há poucas décadas atrás.
Podemos afirmar que apesar da sua antiguidade os conjuntos de cisterna e eirado são ainda bastante actuais, pois com o aumento dos custos de fornecimento, assim como a irregularidade da pluviosidade e a já há muito anunciada escassez tornam esta solução ainda bastante viável para quem possui uma propriedade com este equipamento. Muitos estudos apontam que determinadas soluções ancestrais, sendo esta uma delas, devem fazer parte da arquitectura contemporânea de forma a torná-la mais sustentável e com uma identidade mais vincada.  Outro factor de actualidade é o retorno de muita gente aos campos que acaba por adquirir imóveis antigos e recuperá-los dando nova vida e utilizações aos eirados, salvaguardando e valorizando-os enquanto elemento que confere identidade e uma herança de gerações anteriores.
 
Obras consultadas:
AAVV (1988),
Arquitectura Popular em Portugal, Vol 3., 3ª edição, Lisboa, AAP.

Gamito, Teresa Júdice (2007),
O Algarve e o Magreb 711-1249, Faro, Universidade do Algarve pp. 74-75

quarta-feira, dezembro 21, 2011

A VI Volta ao Algarve em Automóvel- Algarve Rally 1976- Como era vista num jornal regional da época.


A Volta ao Algarve em Automóvel/ Rali do Algarve foi já anteriormente tema aqui neste blogue, desta vez regresso a esta prova na sua edição de 1976 por ter encontrado no periódico Correio do Sul de 28 de Outubro do mesmo ano a notícia a anunciar que começaria no Sábado dia 30 de Outubro pelas 9h em frente ao Casino de Vilamoura. Esta VI edição da Volta, já subtitulada Algarve Rally revestia-se de interesse por estar a ser seguida por observadores da Federação Internacional do Automóvel, vindos do Mónaco para monitorizar a prova tendo em vista a sua futura integração no campeonato Europeu de Ralis o que de facto aconteceu logo no ano seguinte. Ainda não contava para o calendário internacional, mas em 1976 já estavam inscritos alguns pilotos de outras nacionalidades que buscavam ganhar rodagem e desenvolver as suas máquinas aqui no Algarve, que foi ganhando estatuto pela exigência dos troços de terra. Contando para o Campeonato Nacional de Rallyes e para o Regional Promoção- Zona Norte e Sul e constando no Calendário Desportivo Internacional, como vimos desvinculado ainda de campeonato ou troféu, esta edição atraiu especialmente os pilotos nacionais que ao longo das 25 provas classificativas faziam pouco menos de 220 km, se somarmos as ligações e percursos não classificativos a quilometragem superava os 1000 km. O vencedor desta edição foi Mário Silva, navegado por José Nobre num Datsun 240Z, nesta mesma “Volta” despontou também um dos nomes maiores do automobilismo no Algarve, José Inverno Amaral que obteve um excelente 2º lugar também num Datsun, mas desta vez no modelo 1200. Regressando à notícia publicada no jornal dirigido por Mário Lyster Franco, na sua edição nº 2971 é destacada a inscrição até então recorde de 50 equipas concorrentes. A tecnologia da época era também tema de destaque na peça, assim como a mediatização da prova junto da imprensa, como (…)telefones, alguns ligados directamente às redacções de jornais (…), é também falada a utilização de meios informáticos, de circuitos internos de televisão e videotape entre outra tecnologia, isto tudo em meados dos anos 70, o que demonstra a aposta da direcção da prova na sua ascensão ao campeonato europeu. A cronometragem estava a cargo da reputada Omega, já recorrendo às células foto-eléctricas, o que segundo a mensagem veiculada pelo Gabinete de Imprensa e Relações Públicas do Algarve Rally, transmitida no Correio do Sul seria a (…) sólida garantia de que os tempos a fornecer aos computadores sairão correctos. A Força Aérea disponibilizou também um helicóptero para acompanhar a primeira etapa da prova.
A meteorologia para aquele fim de semana de corridas afigurava-se favorável e o bom tempo permitiu às equipas treinar e reconhecer o terreno sem dificuldades, mas vaticinava-se que se a situação se alterasse as coisas poderiam complicar bastante, especialmente nos troços da Torralta e Casais onde, neste último, poderia mesmo ter que ocorrer uma neutralização da prova.
Numa altura em que os país ainda recuperava de diversas convulsões, ainda se vivia com o cenário de crise petrolífera e o desporto automóvel não chegava tão facilmente à população como actualmente, quer por falta de estruturas como as hoje existentes, como o número bem mais reduzido de provas, a Volta ou Algarve Rally, era como aparece no Correio do Sul a grande Festa do Algarve em automóvel, que o Racal Clube sedeado em Silves proporcionava ao público que acorria aos troços.

quarta-feira, outubro 12, 2011

As Escolas Primárias Rurais- Os Planos de 1956 até 1961, a sua importância patrimonial.


Numa altura em que muito se fala de educação, colocações e encerramento de estabelecimentos escolares julgo pertinente abordar a temática das antigas escolas primárias rurais, a maioria delas de uma só sala, espalhadas um pouco por todo o lado. A génese desta rede prende-se com a dotação de estabelecimentos de ensino básico nos meios rurais do país, muitas vezes afastados dos centros urbanos, ou quando não muito, o suficiente para que se tornasse um entrave à alfabetização da população.
Estas escolas do Novo Plano dos Centenários são pela primeira vez propostas por despacho oriundo do Subsecretário de Estado das Obras Públicas a 30 de Março de 1955 que sugere o estudo de arquitectura e engenharia de forma a que a construção dos novos equipamentos seja mais económica, fácil e rápida. Em suma um projecto-tipo simplificado a nível de materiais e soluções como forma de dar resposta à necessidade de alargamento da rede escolar. A resposta a este despacho surge em Janeiro de 1956 com a apresentação ao Ministro das Obras Públicas de um estudo prévio, o Ante-projecto-tipo para edifícios de uma sala, feito pelos técnicos da Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias (DOCEP), pertencente à DGEMN que trabalhava em estreita relação com o Ministério das Obras Públicas. Este Ante-projecto cujo principal mentor foi o arquitecto Fernando Peres visava simplificar todo o processo desde fachadas, vãos e blocos sanitários, normalizando ao máximo de forma a construir mais rápido, reduzir o custo por construção e os elementos arquitectónicos. A simplificação de soluções como, por exemplo, as coberturas tornaram a edificação destes equipamentos mais acessível e permitiu a obtenção de mão de obra não especializada, o que em termos financeiros seria proveitoso. O uso da pedra reduz-se ao essencial, soleiras de portas, peitos de janelas e degraus.
O projecto dividia-se em dois tipos, Urbano e Rural, sendo este último o que nos interessa. Todas as variantes do modelo com mais que uma sala partiram da matriz que foi este Ante-projecto de apenas uma sala, a forma básica, que se adequava aos dispersos núcleos habitacionais, que só nalgumas situações necessitava de ter mais valências.
O Tipo Rural resume-se ao essencial, o grande bloco para albergar a sala de aula de 8x6 metros, um pequeno vestíbulo aberto com acesso à sala e aos sanitários, um para o professor, outro para os alunos. Em favor da rapidez de construção e controlo de custos foi também proposta a possibilidade de usar esteiras de tijolo e vigas de betão em detrimento dos travejamentos de madeira, assim como a redução do número de águas dos telhados.
Apesar do princípio de contenção de custos dada a dimensão da rede escolar a terminar, buscavam-se soluções duradouras e de qualidade que garantissem a longevidade dos edifícios, daí muitos deles, ainda hoje existentes e algo descuidados, não apresentarem grande degradação estrutural. A fiscalização e medições por parte das experientes equipas da DGEMN, habituadas às numerosas intervenções certamente terão contribuído para estas características de longevidade destas construções.
Em Fevereiro do mesmo ano o Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Arantes de Oliveira, faz publicar um despacho que aprova a “orientação” dos estudos já feitos para os novos tipos, sendo estes efectivamente aprovados no mês seguinte a 13 de Março de 1956. Nesta aprovação é sugerida a colaboração entre entidades para o desenvolvimento e contínua melhoria, neste caso entre o DOCEP e o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil).
Conforme seria de esperar à medida que se construíam escolas iam surgindo novas questões e soluções, uma delas proveniente da Secção Sul do DOCEP. No projecto inicial apesar de coberto o vestíbulo era aberto à frente ficando assim muito exposto, daí ter-se optado por fechá-lo, o que importaria em Abril de 1958 mais 1358$20 à construção.
Em 1961, através da lei nº 2107 de 5 de Abril publicada no Diário do Governo é regulamentado um novo plano na senda do que já tínhamos visto nos projectos de 1956 que vai substituir “Na parte ainda por executar, o Plano dos Centenários (...)” Para este plano possuímos números e estavam previstas 254 escolas de uma sala para o Distrito de Faro, 92 estabelecimentos de duas salas e as de maiores dimensões, dadas as características da região iam decrescendo numericamente, mas no total perfaziam 359 novas escolas. 
As autarquias também passaram a ter parte mais activa nos processos, na conservação e manutenção. Há que referir também o aproveitamento do estado do Fundo de Desemprego, prática já com décadas para a obtenção de receitas e mão de obra acessível. Para termos uma ideia uma sala de aula em 1961 orçava em 68000$00 e o mobiliário e apetrechamento cerca de 10000$00
Com factores vários como o abandono dos campos, a melhoria das vias de comunicação, o decréscimo da natalidade, muitos destes equipamentos rurais passaram a não fazer grande sentido e começaram a encerrar pondo-se o problema habitual, o que fazer a estes edifícios? Felizmente vários têm sido entregues a associações ou entidades locais que apesar das dificuldades lá se esforçam por mantê-los, outros adquiridos por particulares, mas há sempre uma percentagem que fica na indefinição e o pior que pode acontecer a um edifício é ficar devoluto, pois o processo de degradação normalmente é acelerado.
   Estes espaços do imaginário popular onde muitos iniciaram os seus estudos são uma marca histórica de grande peso para a população em geral. Espaço de memórias e brincadeiras que deviam continuar a pontuar o nosso meio rural, a sua preservação e utilização impõe-se para que a salvaguarda seja garantida.