Sábado, Outubro 03, 2009

Silves- 1960


Trago-vos uma vez mais uma foto do acervo do IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana), um pequeno pedaço de história de um dia na cidade de Silves. Esta imagem é demonstrativa de algumas mudanças a nível urbanístico desde aquela época, como por exemplo a inexistência actual daquela casa que na foto se encontra adossada à torre que no percurso da história recente foi demolida, e a mudança operada nos finais dos anos 80 inícios dos anos 90 da paragem dos táxis e dos autocarros, estando também um presente na foto, para a frente ribeirinha da cidade.
Como o título indica a foto é, segundo os dados disponíveis nos arquivos do IHRU, datada de 1960, existindo deste modo alguns elementos que podem justificar, ainda que aproximadamente a data, tomando por exemplo o táxi que se encontra à esquerda, que se trata muito provavelmente de um Vauxhall Velox da série produzida entra 1952/1954. Sabendo que os automóveis ainda não se tinham popularizado como nas últimas três décadas e eram um bem acessível a poucos e neste caso a "ferramenta profissional" do proprietário, este seria estimado e poderia ter uns bons anos de uso. O Citröen 2CV à direita na foto é também uma série antiga, muito possivelmente um AZ, produzidos até 1960/61, sendo este reconhecível por ter a tampa da mala em lona tal como o tejadilho.
Demonstrativo também de que o automóvel ainda não era o meio privilegiado de mobilidade dos cidadãos silvenses é a quantidade de pessoas que circulam a pé, a maior parte delas no local destinado aos meios de transporte e também, claro está a presença de algumas bicicletas a pedal.
Volto a insistir na importância dos espólios fotográficos para a compreensão da história recente e como meio de análise das mudanças operadas na nossa sociedade nas últimas décadas.

Fonte da foto: Acervo documental do IHRU.

Domingo, Junho 14, 2009

Atenção necessária.


Desta vez trago ao leitor um elemento que do original já pouco resta, mas que é pleno de simbologia, tendo hoje sido votado a "mera" peça de mobiliário urbano. Trata-se do pelourinho de Silves que durante centenas de anos representou o poder do município e ao mesmo tempo uma marca do domínio régio sobre o termo da cidade.
Como atrás disse do original pouco resta a não ser a coroa que o encima, e mesmo esta viu mutilada a cruz que rematava o topo, sendo deste modo o resto uma "recriação" contemporânea de um elemento urbano, que apesar de disperso em peças separadas desde 1878, foi estranhamente classificado como Imóvel de Interesse Público pelo decreto nº 23/112 do Diário do Governo 231 de 11 de Outubro de 1933.
Mas o que me leva a escrever estas linhas é a atenção que o fragmento original necessita, pois estão a desenvolver-se fungos e sujidade típica do calcário quando exposto às intempéries e ao passar dos séculos.
Uma limpeza, ainda que não retire na totalidade a pátina do tempo, impõe-se , assim como uma sinalética de apresentação deste elemento aos turistas e à comunidade. São gestos simples que marcam diferença e demonstram um respeito global pelo nosso património nas suas mais variadas formas.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Conversas com o Património- 6 de Junho na Igreja da Misericórdia


Passo a transcrever o mail que me foi simpaticamente enviado por Miguel Cabrita da Divisão de Cultura, Turismo e Património da C.M. Silves , a quem desde já agradeço a informação.

O Município de Silves vem por este meio convidar a assistir “ Conversas com o Património” que conta com a presença do Professor Doutor Francisco Lameira, no dia 6 de Junho, Sábado, na Igreja da Misericórdia de Silves pelas 17:00 Horas.


Trata-se de uma excelente oportunidade para a População em geral conhecer um pouco mais do nosso rico Património Cultural. Apareçam.



Domingo, Maio 17, 2009

Medronho: Património Material e Imaterial


Medronhos, originally uploaded by Marco Santos.

Com o aumento das preocupações das condições de higiene e saúde publica e a crescente subida de taxas e impostos, assim como por causa dos incêndios florestais desta década, muitos pequenos produtores existentes na serra têm vindo a findar os trabalhos de cuidado das terras e apanha do fruto e as suas pequenas produções de aguardente de medronho. Nesta pequena reflexão coloco de parte as questões económicas e de mercado por não dominar as áreas, e debruço-me sobre a questão patrimonial nas suas vertentes material e imaterial, esta última dos saberes e experiências de quem participa no processo.

A apanha e produção tradicional têm sofrido um grande decréscimo, logo as pequenas estruturas de produção têm vindo a ser muitas vezes abandonadas ou mesmo desmanteladas, e os terrenos serranos muitas vezes votados ao abandono, o que propicia o aumento do risco de novos incêndios por deixarem de ser limpos e cuidados. O processo de fabrico da aguardente de medronho, desde a apanha à destilação é desconhecido de muitos, nomeadamente das camadas mais jovens, meios urbanos ou então de turistas. Certamente quem toma contacto com uma bebida tem curiosidade de saber qual a sua origem, processo de fabrico e ingredientes e neste caso não será excepção. É por isso necessário salvaguardar a actividade na sua forma mais “tradicional” e proporcionar o contacto do público em geral com esta. Sendo o meio serrano do nosso concelho conhecido há décadas por ser um habitat propício ao desenvolvimento dos medronheiros, pela qualidade do fruto e claro está pela produção da aguardente nas várias pequenas destilarias seria interessante preservar pelo menos uma destas unidades de produção, as destilarias, de forma a que fique funcional, assim como a recolha de testemunhos de antigos produtores ou se possível o acompanhamento e registo do processo de produção tradicional. Os processos, as vivências da apanha, fermentação e destilação, as histórias e crenças ligadas à actividade, são todos dignos de registo. A imprensa já se tem debruçado sobre a produção de medronho algumas vezes, mas esta “tradição” carece de estudos aprofundados e sobretudo de registo e salvaguarda, pois este tipo de conhecimentos e métodos vão-se diluindo com o passar do tempo. Seria interessante, por exemplo, a realização de um documentário televisivo que abordasse esta temática e que pudesse ser exposto em stands da região de turismo, espaços culturais do concelho ou possível de visionar através de um canal na internet. As técnicas construtivas das destilarias seriam também um interessante alvo de estudo que poderia ajudar a compreender melhor a produção. A ligação a outras actividades como o trabalho dos metais para a construção dos alambiques e outros acessórios ou o trabalho do tanoeiro são também fundamentais para entender esta antiga arte. É uma actividade que representa a serra algarvia e cujo produto final tem ganho estatuto, embora haja ainda muito trabalho a fazer para dar a conhecer o método em que é feito há décadas e torná-lo um bom motivo para uma ida à serra.

Hotel Garbe – Algumas considerações.


Tal como o já aqui tratado casino de Armação de Pêra, o Hotel Garbe, inaugurado poucos anos depois (1961), surge como resposta à necessidade de alojar a crescente massa turística que começou a afluir à pequena localidade piscatória, certamente interessada pela beleza e extensão da praia e pelo ambiente pitoresco do ainda pequeno núcleo urbano e suas gentes.

Citando a investigadora Susana Lobo (Lobo, 2007), “ O turismo de massas, e com ele o turista, ganha expressão apenas a partir do pós II Guerra Mundial, com a real generalização das férias às classes trabalhadoras, possível no quadro de recuperação económica europeia do pós-guerra, pela disponibilização de frotas aéreas excedentárias para exploração comercial. O «sul» ganha um renovado fascínio e a trilogia Sun, sand & sea passa a estar ao alcance de todos, em pacotes de férias organizados. Surgem novos empreendimentos turísticos, moldados pela crescente pressão urbanística sobre o litoral, abrindo a oportunidade de se explorarem diferentes conceitos no planeamento de núcleos de veraneio.”.

É neste contexto que se verifica a crescente necessidade de construção de uma estrutura hoteleira de alguma dimensão que respondesse às carências, mas que não deixasse uma grande ferida aberta, tanto a nível de uma ruptura com o tecido urbano de Armação de Pêra, marca a diferença mas não é chocante, nem sobre a falésia onde se desenvolve, num modo que também não é dos mais agressivos, quando comparado com outras construções que se verificam por este Algarve fora.

Debrucemo-nos agora um pouco sobre a obra, os dados que reúno apresentam o período entre 1959 e 1962 para a realização do projecto efectuado pela dupla de arquitectos Jorge Ferreira Chaves e Frederico Sant’Ana e surge como um dos empreendimentos pioneiros da indústria hoteleira no Algarve, que José Manuel Fernandes bem intitula esta e alguns destes projectos da primeira vaga hoteleira no Algarve de “ Obras de escala acertada, volumetrias imaginativas e procurando uma integração local, e com um desenho moderno sem concessões ao “típico”, ao “folclórico” ou ao “decorativo”.” (Fernandes e Janeiro, 2005).

Como tal é necessário livrar alguns destes equipamentos do estigma que lhes foi atribuído ao longo das décadas, um pouco como se diz na sabedoria popular, “Paga o justo pelo pecador”, estigma esse que se verifica devido ao crescimento rápido e desordenado que se verificou em Armação de Pêra e na orla marítima algarvia em geral no período imediatamente posterior à criação do Hotel Garbe.

A necessidade de preservação e divulgação deste património “contemporâneo” tem, a meu ver, que assentar em duas premissas, o primeiro, interpretar esta e outras obras como símbolos de uma época, do advento da abertura da nossa orla marítima ao turismo de massas e consequente modernização (para o bem e para o mal…) e claro está pela qualidade do conceito e da arquitectura, contrariamente a muitas obras que se verificaram na expansão dos núcleos urbanos costeiros onde qualquer parâmetro imposto foi certamente ignorado.

Olhando para o edifício original, ou mesmo depois da ampliação projectada por Jorge Chaves em 1973 verificamos um edifício moderno que apesar da sua grande dimensão, aposta essencialmente na horizontalidade (e não na construção em altura) e no jogo de volumes existente no bloco, como por exemplo os vãos de escada salientes do edifício ou as varandas.

Não sendo apologista das construções sobre falésia por todas as razões conhecidas, é necessário confrontar os conhecimentos actuais com os de finais da década de cinquenta/início de sessenta no que toca a preocupações ambientais, e entender também que estas obras forma realizadas numa conjuntura muito específica que aos nossos olhos pode ser questionável, e de preferência evitável na realização de novos projectos, mas que na altura eram símbolo de uma desejada abertura de Portugal e da nossa região ao mundo.

O Hotel Garbe é tido como um dos projectos referência para a primeira vaga hoteleira no Algarve e pioneiro no nosso concelho, surgindo deste modo referido em inúmeros estudos sobre a arquitectura balnear em Portugal, mas carece de um estudo mais aprofundado que poderia servir para dar a conhecer aos interessados o projecto original, e também as alterações que foram efectuadas nestes 50 anos de forma que se mantivesse ao longo das décadas adequado à crescente exigência dos parâmetros de qualidade impostos às estruturas hoteleiras.

Referências Bibliográficas

Fernandes, José Manuel, Janeiro, Ana. (2005)

Arquitectura no Algarve, dos primórdios à actualidade, uma leitura de síntese

Faro: Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve


Lobo, Susana (2007)

A colonização da linha de costa: da marginal ao "resort" in

Jornal de arquitectos nº. 227 (Abril-Junho 2007), Lisboa. Pp. 18-25

Fonte da imagem: Acervo fotográfico do IHRU.

Domingo, Março 08, 2009

A fotografia e a história local.- Breve opinião.


Numa pesquisa ao acervo fotográfico do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana onde, para além de muitos documentos históricos interessantes, deparei-me com esta belíssima imagem, que para além da sua intenção de documentar a implantação da Cruz de Portugal à entrada da cidade, no local que se crê ser aproximadamente o original, ao invés da sua localização junto à Sé de Silves, onde permaneceu vários anos.
Estes documentos são sem dúvida interessantes portadores de dados para os investigadores, pois contêm informações sobre o estado do monumento à época, é também possível verificar o crescimento urbano, as mudanças da rede viária e até numa análise mais profunda o modo de vida das populações (vestuário, meios de transporte, entre outros.). Por exemplo, é notório se compararmos com a actualidade, a encosta da cidade mais livre de casario. A foto documenta, para além da “nova” implantação da Cruz de Portugal, o castelo que havia alguns anos antes sido alvo de uma profunda intervenção feita pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais.
Aquilo que podia também ser um bonito postal de época é/foi acima de tudo uma ferramenta de trabalho para os técnicos da DGEMN e actualmente para os investigadores. A fotografia é um poderoso suporte que merece ser preservado, divulgado e acima de tudo investigado.





Fonte da imagem: Acervo fotográfico do IHRU

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

O edifício do antigo posto de turismo em Silves, uma abordagem.


Anónimo para a população e reconhecido como original no contexto silvense nas obras relativas à arquitectura no Algarve, é nesta dualidade que vive o edifício que até há bem pouco tempo albergou o posto de turismo da RTA em Silves, e que agora destituído das suas funções, espero que seja reaproveitado em breve para alguma actividade, seja ela de serviços ou comercial.
-Porquê a abordagem ao edifício do antigo posto de turismo?
-Não vejo nada nele… não tem nada de especial!
Quando disse a algumas pessoas que iria escrever sobre ele foi o que ouvi delas.
Em primeira instância e como já disse anteriormente é a meu ver necessário arranjar, e brevemente, resposta para colmatar a mudança do serviço que este prestou durante vários anos para um edifício mais apropriado e melhor localizado. Mas temos que ter em conta que um imóvel que se vê privado de funções está mais rapidamente sujeito a degradação ou mesmo acidentes provocados por falta de manutenção das instalações eléctricas ou canalizações, na sua maioria já antigas.
O mais curioso é o anonimato, já referido, deste edifício no contexto do casco urbano silvense, talvez seja incompreensão que venha da época da sua construção, nas primeiras décadas do século XX, pois nesta cidade manteve-se até muito tarde um grande conservadorismo no que toca à construção e raros são os edifícios que se demarcam dos demais com soluções modernizantes, que acompanhem, nem que seja a título decorativo, as tendências arquitectónicas importadas do exterior ou mesmo das grandes cidades portuguesas onde era mais fácil (ainda que de modo limitado) chegar as ideias de vanguarda.
O edifício do turismo, possivelmente construído nos anos 30 do século passado, é um destes casos, quanto mais não seja nas soluções decorativas e de demarcação de pisos, que adopta uma estética evocativa do estilo Art Déco, tal é patente na decoração entre o piso térreo e o primeiro andar com o jogo de triângulos, as barras que percorrem todo o imóvel, em especial a que se encontra sobre a janela do primeiro piso, com “caneluras”. De notar também a chaminé, que joga com motivos geométricos e “caneluras” e o trabalho de massa acima da porta da habitação na Rua Bernardo Marques.
Comparando com os edifícios anexos denota-se uma postura mais cosmopolita e menos “tradicional”, tanto a nível decorativo como a nível de aproveitamento do pequeno espaço que o imóvel ocupa, jogando desta forma com o aproveitamento na vertical, reforçado visualmente pela sua pouca largura.
Em suma, uma peça arquitectónica que apesar de recente necessita de ser valorizada e porque não integrada em estudos de arquitectura, à semelhança do já efectuado por José Manuel Fernandes e Ana Janeiro, A Arquitectura no Algarve: Dos primórdios à actualidade, uma leitura de síntese, onde o imóvel em questão é referido, ou em obras dedicadas à Art Déco no Algarve, ou ainda quem sabe, um estudo monográfico dedicado ao edifício do turismo.
Os testemunhos arquitectónicos do século XX necessitam de tanta atenção quanto os mais antigos, felizmente esse sentimento tem crescido nos últimos anos, mas o levantamento e a inventariação ou mesmo a classificação são fundamentais e devem ser utilizados como ferramentas para a sua salvaguarda e memória futura.


Artigo originalmente publicado no jornal Terra Ruiva nº 96 de Dezembro de 2008.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

Barragem do Arade – Uma perspectiva histórica e algumas sugestões.


A exploração agrícola ao invés das novas indústrias era um dos cavalos de batalha do Estado Novo que apostava na província como centro de produção capaz de alimentar o país, veja-se o Alentejo que à época foi diversas vezes referido como “o celeiro do país”. A pouca industrialização verificada, à excepção de alguns centros especializados como Portimão e Olhão na indústria conserveira, isto para citar exemplos próximos, cingia-se essencialmente às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
Os concelhos mais interiores do Algarve debatiam-se com dificuldades e no caso de Silves ia-se notando cada vez mais o declínio da indústria corticeira, até então a principal actividade económica do concelho.
Nos anos 40 surgem os primeiros esforços para dinamizar o sector agrícola deste concelho e também dos vizinhos de Lagoa e Portimão, o que vai despoletar em 1944 o lançamento do Programa de Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão e no seu seguimento o projecto de construção da Barragem da Ribeira do Arade, mas a ela voltaremos após nova resenha histórica.
A política de construção de equipamentos e obras públicas foi cedo abraçada pelo Estado Novo, tendo ganho ainda maior expressão após a chegada do oitavo governo em 1932, governo que marca a entrada definitiva de António Oliveira Salazar como chefe de governo e também uma maior estabilidade em relação aos seis anos anteriores de Estado Novo. O impulso inicial desta enorme campanha de obras públicas coincide com o cargo do engenheiro Duarte Pacheco enquanto ministro das obras públicas e comunicações. Portugal tinha uma imensa necessidade de equipamentos e infra-estruturas o que fez que os diversos órgãos que dependiam do Ministério das Obras Públicas e Comunicações (daqui em diante M.O.P.C.) apresentassem projectos e efectuassem construções para tentar suprir essas carências.
Neste caso para satisfazer a ambição do chefe de estado de um país cuja economia tivesse no sector agrícola uma importante fonte de rendimentos e de forma a que este fosse o mais auto-suficiente possível, era essencial a construção de equipamentos como barragens capazes de abastecer amplas zonas de regadio e se possível produzir energia eléctrica de forma a reduzir o consumo de combustíveis fósseis que tanto pesavam no orçamento do país.
Estas obras para além do seu óbvio carácter funcional detêm uma forte carga simbólica e ideológica, foram projectadas também para deixar marca de “obra feita” pelo Estado Novo, como que monumentos, sendo isso bem patente em barragens como a de Idanha (ou do Ponsul) que ostenta no topo do paredão o escudo do Estado Novo (basicamente a esfera armilar estilizada) de grandes dimensões ou no projecto da Barragem da Ribeira de Santa Catarina/Pego do Altar da autoria do conhecido arquitecto Cassiano Branco. Outras barragens poderiam ser referidas, mas falando de projectos mais modestos como o da Ribeira de Arade, era notado uma menor monumentalidade, logo a “memória” de quem tinha edificado o empreendimento era assinalada por um pilar ou obelisco, como vem referido em projectos da época, em granito onde vem uma mensagem típica do regime vigente rematada no final com o apelido do chefe de estado, mensagem essa que passo a transcrever:

“A rega é considerada magno problema de interesse simultaneamente económico, social e militar que como nenhum outro contribuirá para a valorização do património nacional, para a criação de riqueza pública, para a absorção do nosso excesso demográfico e para o desenvolvimento do comércio interno e externo do país.
Salazar
Voltando ao que nos interessa, o projecto da Barragem da Ribeira do Arade foi sendo desenvolvido entre 1944 e 1951, data em que se inicia a sua construção, projecto este que foi entregue pelo M.O.P.C. à Junta Autónoma das Obras de Hidráulica Agrícola e a construção efectuada pela Sociedade de Empreitadas Moniz da Maia & Vaz Guedes, Lda. (futura Somague). Há que referir que o engenheiro residente da obra foi Rui Alves da Silva Sanches que já acumulava experiência de obras de hidráulica como a barragem do Vale do Gaio e outras obras do Vale do Sado e mesmo acompanhamento de missões nas então colónias portuguesas, tendo mais tarde, em 1968, sido nomeado ministro das obras públicas, cargo que desempenhou até 1974 juntamente com a pasta das comunicações, pois o anterior M.O.P.C. havia sido dividido dando lugar a estes dois ministérios.
A construção deste complexo hidráulico ficou terminada em 1955 mas entrou ao serviço apenas no ano seguinte, sendo esta a data que consta no “obelisco” granítico que indica o empreendedor da obra. Nesse mesmo ano a barragem passa para a tutela da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos (DGHS) que passa a estar incumbida de garantir a manutenção e exploração do empreendimento até à entrega deste à Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão em 1959.
A intenção de aproveitar a paisagem criada pela albufeira da Ribeira de Arade para fins turísticos cedo se fez sentir e com os resultados já conhecidos de estruturas turísticas noutras albufeiras do país, o projecto de criação de uma pousada tornava-se aliciante. Para tal foi colocada a hipótese de adaptar e ampliar o antigo edifício do pessoal de fiscalização da obra, também conhecido como a “Casa do Engenheiro” na altura já a servir de restaurante. Este projecto de 1972 elaborado pelo Arq. Guimarães Pestana incluía também, para além da já falada reformulação do edifício existente, a criação de um bloco para o pessoal e serviços de apoio, assim como três “células tipo motel” como o autor lhes chamava, que no total perfaziam 12 quartos. Para além das edificações houve a preocupação de definir convenientemente o exterior, como é possível ver no projecto, espaços verdes e até mesmo um pequeno ancoradouro nas margens da albufeira.
Este projecto foi revisto no ano seguinte ainda na forma de estudo e depois declinado, tendo sido em 1974 apresentado pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais um projecto definitivo para uma pousada da autoria do Arq. Jorge Santos Costa e engenheiros Alberto de Lemos Rola, Joaquim Janela Lucas e Carlos Ferraz. Infelizmente não passou para a realidade material e assim a albufeira da Ribeira do Arade nunca teve a sua pousada, que certamente teria sido uma mais valia para a economia local, a verificar pela afluência de pessoas ao local, que ainda hoje, 52 anos após a sua inauguração, é bastante visitada. Este projecto foi um dos vários que não viu seguimento dada a mudança na vigência política e o período convulso que se viveu nos anos seguintes.
O restaurante ainda funcionou até recentemente ter fechado, apesar de tudo e não corresponder ao espaço planeado no projecto abortado do pessoal da Divisão de construção de edifícios da Direcção de serviços de construção da DGEMN, o ambiente era aprazível e sempre havia uma estrutura de apoio aos visitantes da barragem.
Para a fruição destes espaços que por norma são algo isolados é sempre aconselhável existir uma estrutura de apoio que se possuir algum tipo de informação histórica ainda enriquece mais a visita. A colocação de sinalética e placas explicativas, assim como eventuais visitas guiadas, é algo que se torna cada vez mais premente realizar neste tipo de património “moderno” e convém não esquecer que quanto mais cedo a população em geral e os turistas tomarem consciência do valor destes empreendimentos, mais fácil se tornará a valorização enquanto património cultural do interesse de todos, não só pela função que ainda continua a cumprir, mas sim como marco de uma época que apesar de ainda recente, é conveniente começar a ser melhor estudada e divulgada no campo do Património Cultural.


Artigo originalmente publicado no jornal Edição Especial nº 35 de 14 de Novembro de 2008