quarta-feira, setembro 07, 2011

Casa de Cantoneiros do Falacho- Muitas décadas caídas em esquecimento.


Ao circular pelas estradas mais antigas da região certamente já se deparou com algumas casas de cantoneiros, edifícios que de espaço a espaço acompanhavam o desenvolvimento da rede viária e albergavam as equipas de manutenção e famílias. Estes pequenos complexos além do pólo habitacional dos trabalhadores serviam também como área logística para armazenamento de ferramentas, materiais e alguma maquinaria.
Este tipo de edifícios era projectado de forma tipificada com apenas duas variantes para melhor se adaptar à realidade e necessidade dos locais e, claro está, o número de cantoneiros a destacar por cantão.

As comunicações terrestres no Algarve foram até há algumas décadas muito deficientes, tanto na ligação com o resto do país como a nível regional. Este facto é bastante referido no século XIX por visitantes e mesmo por locais cuja necessidade de se deslocarem era dificultada pelas condicionantes existentes.

Charles Bonnet na sua Memória sobre o Reino do Algarve tece as suas Considerações sobre os melhoramentos a fazer no Algarve e no capítulo dos transportes terrestres escreve, entre muitas outras críticas e sugestões, “Nesta província, existem na parte designada por Beira Mar caminhos passáveis no verão e até transitáveis às viaturas, porém durante a época das chuvas encontram-se intransponíveis. No restante território- e até mesmo no trajecto para a capital do reino ao qual não se deveria dar o pomposo nome de “estrada real” visto ser um simples caminho- o que existe são atalhos por vezes demasiados escabrosos e apenas transitáveis a cavalo.”. Este testemunho demonstra o estado e antiguidade dos “caminhos” que ligavam as povoações do Algarve, situação que levou muitas décadas a suprir, prolongando-se até bem dentro do século XX. O primeiro impulso de construção e melhoria da rede é ainda notado na segunda metade do século XIX e com ele surgem à semelhança do resto do país as primeiras casas de cantoneiros. O exemplar que vamos abordar é referido pela primeira vez no mapa de edifícios de 1889, onze anos mais tarde a casa de cantoneiros do Falacho na Estrada Real nº 77 surge numa planta assinada pelo chefe da 2ª Secção de Conservação do Distrito de Faro, José António Serpa. Segundo a autora da tese As casas dos cantoneiros do Algarve: da conservação das estradas a património a conservar, Maria Isabel S. Carneiro, esta é provavelmente a configuração original do edifício. No ano de 1926 o edifício encontrava-se desprovido de funções tendo sido pedida a sua cedência para a instalação da Escola Primária do Falacho, a conversão do edifício à nova utilização seria custeada pela autarquia silvense que também realojaria o cantoneiro e forneceria um local para armazenar as ferramentas. O pedido foi indeferido pela Administração-Geral das Estradas e Turismo que pretendia continuar a utilizar o complexo e até proceder a reparações no edifício.

Em 1927 é fundada a Junta Autónoma de Estradas e logo no mesmo ano ingressa neste organismo o Engenheiro Joaquim Barata Correia que veio a exercer uma forte influência no Algarve pela prolífera execução de projectos não só para a JAE, mas também em edifícios como o Hospital de Misericórdia de Loulé ou o Liceu de Faro. A importância de Barata Correia para o tecido viário do Algarve prende-se com a execução do projecto-tipo para as casas de cantoneiros, tal como as conhecemos hoje, a intervenção na Aldeia do Ameixial, o traçado da Estrada Nacional 2 entre Almodôvar e Faro, entre outros.

Voltando à casa de cantoneiros do Falacho procederam-se a arranjos em 1931, pois o estado do imóvel era já de alguma degradação e pretendia-se dar continuidade à sua utilização. Em 1937 dá-se a actualização do edifício já segundo o projecto-tipo de Barata Correia comum aos restantes edifício planeados para a região. Foi nesta altura que se acrescentou o frontão com a identificação do edifício.

Depois de traçado o breve historial do edifício até ele ter chegado ao aspecto que ainda hoje ostenta, ainda que muito degradado, não é de excluir que se procederam algumas modificações a nível funcional no interior que não alteraram o aspecto. Entre os finais do século XIX e meados do Século XX a vida deste edifício foi bastante dinâmica, entre o cumprimento da sua função, um breve período de indefinição, as renovações e arranjos e nunca esquecendo os trabalhadores que lá passaram fizeram da casa de cantoneiros do Falacho um sítio com muito que contar.

O estado actual de degradação é já elevado e urge intervir e atribuir funcionalidade ao imóvel de modo a evitar a sua perda. Como já havia indicado em artigo anterior e Maria Isabel S. Carneiro também sugere, a conversão em centro interpretativo seria uma solução e salvaguardaria um património que muitos desconhecemos, mas que foi imagem de muitas décadas nas nossas estradas, as casas de cantoneiros e os seus trabalhadores. É certo que numa altura como esta onde financiamentos e novos projectos culturais muitas vezes são relegados para um segundo plano, será difícil executar a revitalização do espaço, mas a sua perda é algo mais grave e que devia ser evitada.


Foto: Retirada do blogue Rua dos dias que voam: http://diasquevoam.blogspot.com

Sugestões de leitura:

BONNET, Charles; MESQUITA, José Carlos (estudo introd.); VIEGAS, Maria Armanda T. Ramalho (trad., actualiz. e notas) - Memória sobre o Reino do Algarve: descrição geográfica e geológica. Faro: Secretaria de Estado da Cultura, 1990. Tradução da ed. de Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências, 1850.

Carneiro, Maria Isabel S.
As casas dos cantoneiros do Algarve:
da conservação das estradas a património a conservar
, Tese de Mestrado em Estudos do Património apresentada à Universidade Aberta, Lisboa, 2011