segunda-feira, junho 20, 2011

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

 Ontem no âmbito do Dia da Cal em Cacela a Velha tomei conhecimento deste texto absolutamente visionário de Sophia que anteviu muito bem o rumo que o Algarve viria a tomar nas décadas seguintes. Temos que ter em conta que a data da sua publicação é 1963, mais concretamente em Janeiro desse ano no n.º 21 da “Távola Redonda”. Devo agradecer a Fernando Silva Grade pela sua divulgação e por me indicar onde o poderia encontrar. 
Ainda no âmbito da Cal, da sua cor, textura próprias e significado patrimonial recomendo a leitura de um texto de Fernando Silva Grade publicado ontem no blogue A Defesa de Faro.   
Por fim recomendo vivamente a experiência que a ADRIP Cacela, Caiar-te! e Domus Mater proporcionaram e que pelos vistos vai repetir-se. 




Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas.
Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham.
A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria.
Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece.
Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e-ai de nós!-para durar: Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras.
Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista – quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade
Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando ao antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas.
Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos.
A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e de cultura.
A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.
Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.
A arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura.
Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem “arquitectura”, ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade.
Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país.
Mas é urgente evitar os seguintes perigos:

A incompetência
O saloísmo
As especulações com os terrenos
Os maus arquitectos
O falso tradicionalismo
A mania do luxo e da pompa
As obras de fachada

Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor: De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fonte:

sexta-feira, junho 10, 2011

Os Castelos de Portugal na Revista dos Centenários- Silves- Nº 12- Dezembro de 1939.



A Revista dos Centenários surge em 1939 como rosto editorial da iniciativa levada a cabo pelo Secretariado de Propaganda Nacional e da Comissão Executiva dos Centenários, criada no seio do órgão de propaganda estatal para organizar as celebrações do Duplo Centenário em 1940 que teria o seu ponto alto com a Exposição do Mundo Português. O Duplo Centenário dizia respeito a duas datas marcantes da história do país, a primeira 1140 marcava a fundação da nacionalidade e a segunda, 1640, a restauração da independência do Reino de Portugal. Numa altura em que para a manutenção da própria ideologia os feitos foram muitas vezes enaltecidos e mesmo empolados,o historicismo surgiu como uma das opções tomadas para transmitir uma imagem de Portugal que não correspondia à vida real da população, mas que relegava o pensamento para um ressurgimento do país como potência.
Esta publicação editada entre 1939 e 1940 no total de 24 números era toda ela recheada de carácter historicista e nacionalista que eram frequentemente acompanhados de outros assuntos de interesse nacional,revista de imprensa e a actualização do estado dos preparativos das celebrações dos Centenários..
Da comissão responsável por esta edição faziam parte diversas figuras de relevo da cultura portuguesa como António Ferro, Júlio Dantas, João Ameal, Cottinelli Telmo, entre muitos outros de diversos quadrantes. Jorge Larcher, o autor do artigo que vamos abordar é disso exemplo, pois possuía uma alta patente militar (Capitão), mas era um interessado e estudioso na área das antigas fortificações, tendo obra editada sobre o tema* .
Na revista nº 12, a que fecha o I Volume , Larcher dedica o seu espaço Castelos de Portugal a duas alcáçovas do sul de Portugal, Alcácer do Sal e Silves, sendo este último o que nos interessa aprofundar.
É de notar que o texto e figuras são de época ainda anterior à campanha da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) em ambos os castelos, um deles mais tarde convertido em Pousada, e o outro um espaço turístico-cultural. Essas campanhas vieram dar uma leitura muito diferente dos monumentos, mas o que vale é que a “honestidade” do organismo interveniente permitiu-lhes elaborar dezenas de boletins sobre as campanhas em diversos monumentos. Esses boletins eram bastante bem documentados com o antes e depois das intervenções, facilitando a quem estuda uma leitura, pois muito desse património ficou verdadeiramente transfigurado.
Debruçando-nos de novo na rubrica do Capitão Jorge Larcher o que apuramos à primeira é o enaltecimento do esforço e persistência que as gentes portuguesas tiveram contra os outros neste caso os sarracenos para conquistar estas praças que eram estratégicas e verdadeiramente influentes no contexto do sul do território actualmente português. Esta distinção das gentes portuguesas face aos outros, neste caso os Sarracenos é muito comum na altura de forma a exaltar os feitos e antiguidade da nação que se via numa situação que podemos transpor para o século XX com os devidos cuidados e distâncias. O Estado Novo receava também uma ascensão política de determinados grupos, neste caso anarco-sindicalistas ou ideologias de matriz socialista, muitas delas importadas da União Soviética e viu no nacionalismo e historicismo uma forma de apelar a, ou mesmo forçar, um nacionalismo assente no passado e avesso a intervenções exteriores, daí a grande celebração da fundação da nacionalidade e restauração da independência. Larcher certamente seria uma pessoa com ligações ou simpatizante do regime e partilharia a ideologia passando-a para textos como o que aqui se aborda.
A páginas 47 após resumidamente ter falado de Alcácer do Sal o autor começa as suas considerações sobre a alcáçova de Silves reforçando a ideia de que era uma das melhor fortificadas do actual Algarve, neste caso surgindo referido como Al-Faghar ou Chencir. Continua discorrendo sobre a beleza e grandeza da Chelb sarracena. Larcher depois dedica o texto aos avanços e recuos dos militares portugueses e cruzados na conquista desta praça de guerra que dotada de bom armazenamento de água por parte das cisternas e provisões se revelou tarefa difícil. Focando-se nos momentos-chave de 1189, quando Sancho I conquista Silves, mas que passado pouco tempo perde o domínio da cidade de novo para os Sarracenos, e a reconquista de 1249 já por D. Afonso III quando a cidade passou definitivamente a fazer parte de Teriitório português. O discurso sempre no tom nacionalista tende a reforçar a ideia da dificuldade que os aguerridos portugueses passaram mas que a persistência e arrojo venceram e colocaram mais um marco na definição do território português.
Mesmo quando muito resumidamente aborda o edifício de um ponto de vista patrimonial Larcher não deixa cair o discurso, falando de como este se encontrava profanado, mas que deve ser mantido como recordação histórica dessas épocas afastadas, em que se afirmou o esfôrço patriótico e a audácia dos valorosos portugueses, que tão abnegadamente se entregaram à cruzada patriótica de dilatar o território e firmar a nacionalidade portuguesa.
Esta exaltação contínua que serve o propósito a que a Comissão Executiva dos Centenários se propôs é de tal forma introduzida no texto que aspectos que certamente mesmo na época, interessariam ao leitor são relegados para um plano muito secundário, como o estado do monumento que se resume à palavra profanado ou então às características da fortificação que é descrita apenas como apresentando acentuados traços da arquitectura mourisca.
A Revista dos Centenários é uma publicação que a vários títulos demonstra o rumo ideológico tomado nos anos 30 e 40 do regime governado por Salazar e a forma como a História foi utilizada para moldar a opinião da população. O rumo estético é também possível de apurar pela publicação e outro motivo de estudo quer a nível gráfico, do registo fotográfico ou pormenores arquitectónicos existentes na publicação. Pode-se afirmar que este conjunto de 24 publicações é um breviário do pensamento e acção do Estado Novo para a sua primeira década de governação.




* LARCHER, Jorge das Neves, Castelos de Portugal, Lisboa, 1933