quarta-feira, dezembro 21, 2011

A VI Volta ao Algarve em Automóvel- Algarve Rally 1976- Como era vista num jornal regional da época.


A Volta ao Algarve em Automóvel/ Rali do Algarve foi já anteriormente tema aqui neste blogue, desta vez regresso a esta prova na sua edição de 1976 por ter encontrado no periódico Correio do Sul de 28 de Outubro do mesmo ano a notícia a anunciar que começaria no Sábado dia 30 de Outubro pelas 9h em frente ao Casino de Vilamoura. Esta VI edição da Volta, já subtitulada Algarve Rally revestia-se de interesse por estar a ser seguida por observadores da Federação Internacional do Automóvel, vindos do Mónaco para monitorizar a prova tendo em vista a sua futura integração no campeonato Europeu de Ralis o que de facto aconteceu logo no ano seguinte. Ainda não contava para o calendário internacional, mas em 1976 já estavam inscritos alguns pilotos de outras nacionalidades que buscavam ganhar rodagem e desenvolver as suas máquinas aqui no Algarve, que foi ganhando estatuto pela exigência dos troços de terra. Contando para o Campeonato Nacional de Rallyes e para o Regional Promoção- Zona Norte e Sul e constando no Calendário Desportivo Internacional, como vimos desvinculado ainda de campeonato ou troféu, esta edição atraiu especialmente os pilotos nacionais que ao longo das 25 provas classificativas faziam pouco menos de 220 km, se somarmos as ligações e percursos não classificativos a quilometragem superava os 1000 km. O vencedor desta edição foi Mário Silva, navegado por José Nobre num Datsun 240Z, nesta mesma “Volta” despontou também um dos nomes maiores do automobilismo no Algarve, José Inverno Amaral que obteve um excelente 2º lugar também num Datsun, mas desta vez no modelo 1200. Regressando à notícia publicada no jornal dirigido por Mário Lyster Franco, na sua edição nº 2971 é destacada a inscrição até então recorde de 50 equipas concorrentes. A tecnologia da época era também tema de destaque na peça, assim como a mediatização da prova junto da imprensa, como (…)telefones, alguns ligados directamente às redacções de jornais (…), é também falada a utilização de meios informáticos, de circuitos internos de televisão e videotape entre outra tecnologia, isto tudo em meados dos anos 70, o que demonstra a aposta da direcção da prova na sua ascensão ao campeonato europeu. A cronometragem estava a cargo da reputada Omega, já recorrendo às células foto-eléctricas, o que segundo a mensagem veiculada pelo Gabinete de Imprensa e Relações Públicas do Algarve Rally, transmitida no Correio do Sul seria a (…) sólida garantia de que os tempos a fornecer aos computadores sairão correctos. A Força Aérea disponibilizou também um helicóptero para acompanhar a primeira etapa da prova.
A meteorologia para aquele fim de semana de corridas afigurava-se favorável e o bom tempo permitiu às equipas treinar e reconhecer o terreno sem dificuldades, mas vaticinava-se que se a situação se alterasse as coisas poderiam complicar bastante, especialmente nos troços da Torralta e Casais onde, neste último, poderia mesmo ter que ocorrer uma neutralização da prova.
Numa altura em que os país ainda recuperava de diversas convulsões, ainda se vivia com o cenário de crise petrolífera e o desporto automóvel não chegava tão facilmente à população como actualmente, quer por falta de estruturas como as hoje existentes, como o número bem mais reduzido de provas, a Volta ou Algarve Rally, era como aparece no Correio do Sul a grande Festa do Algarve em automóvel, que o Racal Clube sedeado em Silves proporcionava ao público que acorria aos troços.

quarta-feira, outubro 12, 2011

As Escolas Primárias Rurais- Os Planos de 1956 até 1961, a sua importância patrimonial.


Numa altura em que muito se fala de educação, colocações e encerramento de estabelecimentos escolares julgo pertinente abordar a temática das antigas escolas primárias rurais, a maioria delas de uma só sala, espalhadas um pouco por todo o lado. A génese desta rede prende-se com a dotação de estabelecimentos de ensino básico nos meios rurais do país, muitas vezes afastados dos centros urbanos, ou quando não muito, o suficiente para que se tornasse um entrave à alfabetização da população.
Estas escolas do Novo Plano dos Centenários são pela primeira vez propostas por despacho oriundo do Subsecretário de Estado das Obras Públicas a 30 de Março de 1955 que sugere o estudo de arquitectura e engenharia de forma a que a construção dos novos equipamentos seja mais económica, fácil e rápida. Em suma um projecto-tipo simplificado a nível de materiais e soluções como forma de dar resposta à necessidade de alargamento da rede escolar. A resposta a este despacho surge em Janeiro de 1956 com a apresentação ao Ministro das Obras Públicas de um estudo prévio, o Ante-projecto-tipo para edifícios de uma sala, feito pelos técnicos da Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias (DOCEP), pertencente à DGEMN que trabalhava em estreita relação com o Ministério das Obras Públicas. Este Ante-projecto cujo principal mentor foi o arquitecto Fernando Peres visava simplificar todo o processo desde fachadas, vãos e blocos sanitários, normalizando ao máximo de forma a construir mais rápido, reduzir o custo por construção e os elementos arquitectónicos. A simplificação de soluções como, por exemplo, as coberturas tornaram a edificação destes equipamentos mais acessível e permitiu a obtenção de mão de obra não especializada, o que em termos financeiros seria proveitoso. O uso da pedra reduz-se ao essencial, soleiras de portas, peitos de janelas e degraus.
O projecto dividia-se em dois tipos, Urbano e Rural, sendo este último o que nos interessa. Todas as variantes do modelo com mais que uma sala partiram da matriz que foi este Ante-projecto de apenas uma sala, a forma básica, que se adequava aos dispersos núcleos habitacionais, que só nalgumas situações necessitava de ter mais valências.
O Tipo Rural resume-se ao essencial, o grande bloco para albergar a sala de aula de 8x6 metros, um pequeno vestíbulo aberto com acesso à sala e aos sanitários, um para o professor, outro para os alunos. Em favor da rapidez de construção e controlo de custos foi também proposta a possibilidade de usar esteiras de tijolo e vigas de betão em detrimento dos travejamentos de madeira, assim como a redução do número de águas dos telhados.
Apesar do princípio de contenção de custos dada a dimensão da rede escolar a terminar, buscavam-se soluções duradouras e de qualidade que garantissem a longevidade dos edifícios, daí muitos deles, ainda hoje existentes e algo descuidados, não apresentarem grande degradação estrutural. A fiscalização e medições por parte das experientes equipas da DGEMN, habituadas às numerosas intervenções certamente terão contribuído para estas características de longevidade destas construções.
Em Fevereiro do mesmo ano o Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Arantes de Oliveira, faz publicar um despacho que aprova a “orientação” dos estudos já feitos para os novos tipos, sendo estes efectivamente aprovados no mês seguinte a 13 de Março de 1956. Nesta aprovação é sugerida a colaboração entre entidades para o desenvolvimento e contínua melhoria, neste caso entre o DOCEP e o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil).
Conforme seria de esperar à medida que se construíam escolas iam surgindo novas questões e soluções, uma delas proveniente da Secção Sul do DOCEP. No projecto inicial apesar de coberto o vestíbulo era aberto à frente ficando assim muito exposto, daí ter-se optado por fechá-lo, o que importaria em Abril de 1958 mais 1358$20 à construção.
Em 1961, através da lei nº 2107 de 5 de Abril publicada no Diário do Governo é regulamentado um novo plano na senda do que já tínhamos visto nos projectos de 1956 que vai substituir “Na parte ainda por executar, o Plano dos Centenários (...)” Para este plano possuímos números e estavam previstas 254 escolas de uma sala para o Distrito de Faro, 92 estabelecimentos de duas salas e as de maiores dimensões, dadas as características da região iam decrescendo numericamente, mas no total perfaziam 359 novas escolas. 
As autarquias também passaram a ter parte mais activa nos processos, na conservação e manutenção. Há que referir também o aproveitamento do estado do Fundo de Desemprego, prática já com décadas para a obtenção de receitas e mão de obra acessível. Para termos uma ideia uma sala de aula em 1961 orçava em 68000$00 e o mobiliário e apetrechamento cerca de 10000$00
Com factores vários como o abandono dos campos, a melhoria das vias de comunicação, o decréscimo da natalidade, muitos destes equipamentos rurais passaram a não fazer grande sentido e começaram a encerrar pondo-se o problema habitual, o que fazer a estes edifícios? Felizmente vários têm sido entregues a associações ou entidades locais que apesar das dificuldades lá se esforçam por mantê-los, outros adquiridos por particulares, mas há sempre uma percentagem que fica na indefinição e o pior que pode acontecer a um edifício é ficar devoluto, pois o processo de degradação normalmente é acelerado.
   Estes espaços do imaginário popular onde muitos iniciaram os seus estudos são uma marca histórica de grande peso para a população em geral. Espaço de memórias e brincadeiras que deviam continuar a pontuar o nosso meio rural, a sua preservação e utilização impõe-se para que a salvaguarda seja garantida.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Casa de Cantoneiros do Falacho- Muitas décadas caídas em esquecimento.


Ao circular pelas estradas mais antigas da região certamente já se deparou com algumas casas de cantoneiros, edifícios que de espaço a espaço acompanhavam o desenvolvimento da rede viária e albergavam as equipas de manutenção e famílias. Estes pequenos complexos além do pólo habitacional dos trabalhadores serviam também como área logística para armazenamento de ferramentas, materiais e alguma maquinaria.
Este tipo de edifícios era projectado de forma tipificada com apenas duas variantes para melhor se adaptar à realidade e necessidade dos locais e, claro está, o número de cantoneiros a destacar por cantão.

As comunicações terrestres no Algarve foram até há algumas décadas muito deficientes, tanto na ligação com o resto do país como a nível regional. Este facto é bastante referido no século XIX por visitantes e mesmo por locais cuja necessidade de se deslocarem era dificultada pelas condicionantes existentes.

Charles Bonnet na sua Memória sobre o Reino do Algarve tece as suas Considerações sobre os melhoramentos a fazer no Algarve e no capítulo dos transportes terrestres escreve, entre muitas outras críticas e sugestões, “Nesta província, existem na parte designada por Beira Mar caminhos passáveis no verão e até transitáveis às viaturas, porém durante a época das chuvas encontram-se intransponíveis. No restante território- e até mesmo no trajecto para a capital do reino ao qual não se deveria dar o pomposo nome de “estrada real” visto ser um simples caminho- o que existe são atalhos por vezes demasiados escabrosos e apenas transitáveis a cavalo.”. Este testemunho demonstra o estado e antiguidade dos “caminhos” que ligavam as povoações do Algarve, situação que levou muitas décadas a suprir, prolongando-se até bem dentro do século XX. O primeiro impulso de construção e melhoria da rede é ainda notado na segunda metade do século XIX e com ele surgem à semelhança do resto do país as primeiras casas de cantoneiros. O exemplar que vamos abordar é referido pela primeira vez no mapa de edifícios de 1889, onze anos mais tarde a casa de cantoneiros do Falacho na Estrada Real nº 77 surge numa planta assinada pelo chefe da 2ª Secção de Conservação do Distrito de Faro, José António Serpa. Segundo a autora da tese As casas dos cantoneiros do Algarve: da conservação das estradas a património a conservar, Maria Isabel S. Carneiro, esta é provavelmente a configuração original do edifício. No ano de 1926 o edifício encontrava-se desprovido de funções tendo sido pedida a sua cedência para a instalação da Escola Primária do Falacho, a conversão do edifício à nova utilização seria custeada pela autarquia silvense que também realojaria o cantoneiro e forneceria um local para armazenar as ferramentas. O pedido foi indeferido pela Administração-Geral das Estradas e Turismo que pretendia continuar a utilizar o complexo e até proceder a reparações no edifício.

Em 1927 é fundada a Junta Autónoma de Estradas e logo no mesmo ano ingressa neste organismo o Engenheiro Joaquim Barata Correia que veio a exercer uma forte influência no Algarve pela prolífera execução de projectos não só para a JAE, mas também em edifícios como o Hospital de Misericórdia de Loulé ou o Liceu de Faro. A importância de Barata Correia para o tecido viário do Algarve prende-se com a execução do projecto-tipo para as casas de cantoneiros, tal como as conhecemos hoje, a intervenção na Aldeia do Ameixial, o traçado da Estrada Nacional 2 entre Almodôvar e Faro, entre outros.

Voltando à casa de cantoneiros do Falacho procederam-se a arranjos em 1931, pois o estado do imóvel era já de alguma degradação e pretendia-se dar continuidade à sua utilização. Em 1937 dá-se a actualização do edifício já segundo o projecto-tipo de Barata Correia comum aos restantes edifício planeados para a região. Foi nesta altura que se acrescentou o frontão com a identificação do edifício.

Depois de traçado o breve historial do edifício até ele ter chegado ao aspecto que ainda hoje ostenta, ainda que muito degradado, não é de excluir que se procederam algumas modificações a nível funcional no interior que não alteraram o aspecto. Entre os finais do século XIX e meados do Século XX a vida deste edifício foi bastante dinâmica, entre o cumprimento da sua função, um breve período de indefinição, as renovações e arranjos e nunca esquecendo os trabalhadores que lá passaram fizeram da casa de cantoneiros do Falacho um sítio com muito que contar.

O estado actual de degradação é já elevado e urge intervir e atribuir funcionalidade ao imóvel de modo a evitar a sua perda. Como já havia indicado em artigo anterior e Maria Isabel S. Carneiro também sugere, a conversão em centro interpretativo seria uma solução e salvaguardaria um património que muitos desconhecemos, mas que foi imagem de muitas décadas nas nossas estradas, as casas de cantoneiros e os seus trabalhadores. É certo que numa altura como esta onde financiamentos e novos projectos culturais muitas vezes são relegados para um segundo plano, será difícil executar a revitalização do espaço, mas a sua perda é algo mais grave e que devia ser evitada.


Foto: Retirada do blogue Rua dos dias que voam: http://diasquevoam.blogspot.com

Sugestões de leitura:

BONNET, Charles; MESQUITA, José Carlos (estudo introd.); VIEGAS, Maria Armanda T. Ramalho (trad., actualiz. e notas) - Memória sobre o Reino do Algarve: descrição geográfica e geológica. Faro: Secretaria de Estado da Cultura, 1990. Tradução da ed. de Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências, 1850.

Carneiro, Maria Isabel S.
As casas dos cantoneiros do Algarve:
da conservação das estradas a património a conservar
, Tese de Mestrado em Estudos do Património apresentada à Universidade Aberta, Lisboa, 2011




segunda-feira, junho 20, 2011

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

 Ontem no âmbito do Dia da Cal em Cacela a Velha tomei conhecimento deste texto absolutamente visionário de Sophia que anteviu muito bem o rumo que o Algarve viria a tomar nas décadas seguintes. Temos que ter em conta que a data da sua publicação é 1963, mais concretamente em Janeiro desse ano no n.º 21 da “Távola Redonda”. Devo agradecer a Fernando Silva Grade pela sua divulgação e por me indicar onde o poderia encontrar. 
Ainda no âmbito da Cal, da sua cor, textura próprias e significado patrimonial recomendo a leitura de um texto de Fernando Silva Grade publicado ontem no blogue A Defesa de Faro.   
Por fim recomendo vivamente a experiência que a ADRIP Cacela, Caiar-te! e Domus Mater proporcionaram e que pelos vistos vai repetir-se. 




Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas.
Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham.
A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria.
Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece.
Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e-ai de nós!-para durar: Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras.
Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista – quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade
Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando ao antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas.
Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos.
A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e de cultura.
A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.
Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.
A arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura.
Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem “arquitectura”, ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade.
Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país.
Mas é urgente evitar os seguintes perigos:

A incompetência
O saloísmo
As especulações com os terrenos
Os maus arquitectos
O falso tradicionalismo
A mania do luxo e da pompa
As obras de fachada

Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor: De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fonte:

sexta-feira, junho 10, 2011

Os Castelos de Portugal na Revista dos Centenários- Silves- Nº 12- Dezembro de 1939.



A Revista dos Centenários surge em 1939 como rosto editorial da iniciativa levada a cabo pelo Secretariado de Propaganda Nacional e da Comissão Executiva dos Centenários, criada no seio do órgão de propaganda estatal para organizar as celebrações do Duplo Centenário em 1940 que teria o seu ponto alto com a Exposição do Mundo Português. O Duplo Centenário dizia respeito a duas datas marcantes da história do país, a primeira 1140 marcava a fundação da nacionalidade e a segunda, 1640, a restauração da independência do Reino de Portugal. Numa altura em que para a manutenção da própria ideologia os feitos foram muitas vezes enaltecidos e mesmo empolados,o historicismo surgiu como uma das opções tomadas para transmitir uma imagem de Portugal que não correspondia à vida real da população, mas que relegava o pensamento para um ressurgimento do país como potência.
Esta publicação editada entre 1939 e 1940 no total de 24 números era toda ela recheada de carácter historicista e nacionalista que eram frequentemente acompanhados de outros assuntos de interesse nacional,revista de imprensa e a actualização do estado dos preparativos das celebrações dos Centenários..
Da comissão responsável por esta edição faziam parte diversas figuras de relevo da cultura portuguesa como António Ferro, Júlio Dantas, João Ameal, Cottinelli Telmo, entre muitos outros de diversos quadrantes. Jorge Larcher, o autor do artigo que vamos abordar é disso exemplo, pois possuía uma alta patente militar (Capitão), mas era um interessado e estudioso na área das antigas fortificações, tendo obra editada sobre o tema* .
Na revista nº 12, a que fecha o I Volume , Larcher dedica o seu espaço Castelos de Portugal a duas alcáçovas do sul de Portugal, Alcácer do Sal e Silves, sendo este último o que nos interessa aprofundar.
É de notar que o texto e figuras são de época ainda anterior à campanha da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) em ambos os castelos, um deles mais tarde convertido em Pousada, e o outro um espaço turístico-cultural. Essas campanhas vieram dar uma leitura muito diferente dos monumentos, mas o que vale é que a “honestidade” do organismo interveniente permitiu-lhes elaborar dezenas de boletins sobre as campanhas em diversos monumentos. Esses boletins eram bastante bem documentados com o antes e depois das intervenções, facilitando a quem estuda uma leitura, pois muito desse património ficou verdadeiramente transfigurado.
Debruçando-nos de novo na rubrica do Capitão Jorge Larcher o que apuramos à primeira é o enaltecimento do esforço e persistência que as gentes portuguesas tiveram contra os outros neste caso os sarracenos para conquistar estas praças que eram estratégicas e verdadeiramente influentes no contexto do sul do território actualmente português. Esta distinção das gentes portuguesas face aos outros, neste caso os Sarracenos é muito comum na altura de forma a exaltar os feitos e antiguidade da nação que se via numa situação que podemos transpor para o século XX com os devidos cuidados e distâncias. O Estado Novo receava também uma ascensão política de determinados grupos, neste caso anarco-sindicalistas ou ideologias de matriz socialista, muitas delas importadas da União Soviética e viu no nacionalismo e historicismo uma forma de apelar a, ou mesmo forçar, um nacionalismo assente no passado e avesso a intervenções exteriores, daí a grande celebração da fundação da nacionalidade e restauração da independência. Larcher certamente seria uma pessoa com ligações ou simpatizante do regime e partilharia a ideologia passando-a para textos como o que aqui se aborda.
A páginas 47 após resumidamente ter falado de Alcácer do Sal o autor começa as suas considerações sobre a alcáçova de Silves reforçando a ideia de que era uma das melhor fortificadas do actual Algarve, neste caso surgindo referido como Al-Faghar ou Chencir. Continua discorrendo sobre a beleza e grandeza da Chelb sarracena. Larcher depois dedica o texto aos avanços e recuos dos militares portugueses e cruzados na conquista desta praça de guerra que dotada de bom armazenamento de água por parte das cisternas e provisões se revelou tarefa difícil. Focando-se nos momentos-chave de 1189, quando Sancho I conquista Silves, mas que passado pouco tempo perde o domínio da cidade de novo para os Sarracenos, e a reconquista de 1249 já por D. Afonso III quando a cidade passou definitivamente a fazer parte de Teriitório português. O discurso sempre no tom nacionalista tende a reforçar a ideia da dificuldade que os aguerridos portugueses passaram mas que a persistência e arrojo venceram e colocaram mais um marco na definição do território português.
Mesmo quando muito resumidamente aborda o edifício de um ponto de vista patrimonial Larcher não deixa cair o discurso, falando de como este se encontrava profanado, mas que deve ser mantido como recordação histórica dessas épocas afastadas, em que se afirmou o esfôrço patriótico e a audácia dos valorosos portugueses, que tão abnegadamente se entregaram à cruzada patriótica de dilatar o território e firmar a nacionalidade portuguesa.
Esta exaltação contínua que serve o propósito a que a Comissão Executiva dos Centenários se propôs é de tal forma introduzida no texto que aspectos que certamente mesmo na época, interessariam ao leitor são relegados para um plano muito secundário, como o estado do monumento que se resume à palavra profanado ou então às características da fortificação que é descrita apenas como apresentando acentuados traços da arquitectura mourisca.
A Revista dos Centenários é uma publicação que a vários títulos demonstra o rumo ideológico tomado nos anos 30 e 40 do regime governado por Salazar e a forma como a História foi utilizada para moldar a opinião da população. O rumo estético é também possível de apurar pela publicação e outro motivo de estudo quer a nível gráfico, do registo fotográfico ou pormenores arquitectónicos existentes na publicação. Pode-se afirmar que este conjunto de 24 publicações é um breviário do pensamento e acção do Estado Novo para a sua primeira década de governação.




* LARCHER, Jorge das Neves, Castelos de Portugal, Lisboa, 1933