segunda-feira, novembro 08, 2010

O concelho de Silves na obra Arquitectura Popular em Portugal.


Farão em 2011 cinquenta anos que foi publicada a incontornável obra Arquitectura Popular em Portugal por meio do Sindicato Nacional dos Arquitectos, resultado do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa (em diante IARP) efectuado entre 1955 e 1960, este também promovido pela mesma organização sindical e subsidiado pelo Ministério das Obras Públicas através do decreto-lei 40349 de 19 de Outubro de 1955. Obra referencial porque para além de ser o primeiro estudo exaustivo do género no nosso país a abordar a temática da arquitectura vernácula, marca também uma importante viragem na maneira de pensar a disciplina. Desta feita vai-se procurar a “realidade do tradicional”, e não a tradição imposta, ou a tão teorizada “casinha portuguesa”, tipificada por região abrindo caminho a uma nova geração de arquitectos que não deseja praticar a “casinha portuguesa” nem arquitectura de feição internacional ou modernista. Surge assim no círculo uma corrente que funde a modernidade com as principais características populares da qual Francisco Keil do Amaral, também um dos impulsionadores e participante do IARP, procurava praticar.

Falar de Keil do Amaral e do IARP remete-nos para as origens deste projecto que era ambicionado desde os finais dos anos 40, tendo sido sugerida por este arquitecto em 1947 a realização de um inquérito na revista Arquitectura. Dois anos mais tarde, durante a sua direcção no Sindicato deu-se uma tentativa abortada devido à falta de apoios oficiais e quando em 1955 foi finalmente possível realizar Keil do Amaral juntamente com José Huertas Lobo e João José Malato cobriram a Zona 3 respeitante às Beiras.

A importância desta obra estende-se também à sua capacidade de traçar um panorama do estado da arquitectura num país ainda fortemente ruralizado e com pouca implementação das técnicas mais inovadoras de construção que raramente saíam dos núcleos urbanos. É também de fazer notar a ironia que os resultados deste inquérito trouxeram ao seu financiador, o Estado através do Ministério das Obras Públicas, pois procurava-se neste estudo um “valor prático para o desejado aportuguesamento da arquitectura moderna no nosso país”, conforme vem sugerido no decreto-lei atrás referido, o que se revelou ser infrutífero. Ao contrário, percebeu-se ser impossível descobrir uma arquitectura nacional unificada na medida em que cada região lida de forma diferente com as soluções e materiais aplicados tendo em conta os factores climatéricos, geográficos ou de disponibilidade de matéria-prima, existindo desta forma uma disparidade de situações e não a desejada coesão nacional.

O Algarve pertencia à Zona 6, que abrangia também parcialmente a faixa costeira do Sudoeste Alentejano e alguns pontos de contacto do Sul desta região com o Algarve, como os concelhos de Ourique, Almodôvar ou Castro Verde. O levantamento da Zona foi da responsabilidade de Artur Pires Martins, Celestino de Castro e Fernando Torres e os resultados figuraram no segundo volume da Arquitectura Popular em Portugal (III volume na 3ª edição de 1988, a consultada para este artigo) em mais de cem páginas onde não faltaram uma introdução geográfica, estudos de caso, uma abordagem à estrutura urbana, as condições climáticas e matérias-primas disponíveis, entre outros parâmetros necessários à compreensão das opções arquitectónicas para cada região/sub-região.

O que importa a este artigo é o património oriundo do concelho de Silves presente nesta obra, do qual não farei menção a todas as alusões ou referências, pois são bastantes, mas sim às que julgo mais significativas ou de carácter específico para a área geográfica em questão.

A primeira alusão que me parece significativa para o concelho de Silves, e que foi até caso de estudo nesta obra é feita à povoação de Fontes da Matosa, claro está, muito diferente da actualidade, onde os autores procedem a uma necessária descrição da aldeia. Referem-se ao modo como se implanta no terreno e frisam a importância que esta teria enquanto ponto de ligação entre Silves e Alcantarilha. Para um completo estudo da arquitectura, os autores não se ficaram pela descrição das casas, pois abordaram a importância da implantação de Fontes da Matosa “encravada entre as propriedades circundantes”, pronta a fornecer e abrigar a mão de obra. A existência de dois poços e um forno comunitário, em redor dos quais se desenvolveu o casario, é outro dos pontos frisados. Como é referido, também o abastecimento de água seria fraco, logo aqueles dois poços seriam da maior importância para a aldeia, constituindo com o forno uma área funcional comunitária que define a organização do espaço. Fontes da Matosa seria uma aldeia que acolheria os trabalhadores das propriedades em redor, um conjunto de casas modestas de telhados de duas águas, com os vãos voltados para o largo e sem logradouros posteriores. Construídas essencialmente com matérias-primas autóctones, à excepção das madeiras, estas segundo os autores na sua maioria provenientes da Serra de Monchique. A austeridade das casas traduza-se também nos vãos onde, na maior parte dos casos, as portadas das janelas não teriam sequer vidros.

Outro exemplo interessante abordado nesta obra é o da especificidade territorial dos conjuntos de eirado e cisterna que se circunscrevem apenas às freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines, Tunes e Porches, esta última do concelho de Lagoa. Um dos exemplares apresentados nas figuras para ilustrar estes aspectos é proveniente da aldeia da Amorosa. Hoje em dia será conveniente explicar aos leitores o que é um eirado, recorro assim às palavras dos autores; “Se não é suficiente a água recolhida, recorre-se então ao eirado, que consta dum vasto terreiro, ao nível do terreno, revestido com ladrilhos e com declives para encaminhar a água das chuvas para um pequeno orifício, que comunica com o interior da cisterna, de onde será tirada por meio de uma boca semelhante à dos poços.

Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superíicie exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraços, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.”

Na secção destinada a mencionar as principais matérias-primas e sua proveniência temos exemplos vários, desde a nossa bem conhecida Grés de Silves, ou Arenito Vermelho, bem presente na faixa Silves/Messines, assim como os calcários e argilas do barrocal, ou mesmo o fabrico e aplicação da telha de canudo proveniente das Taipas, um topónimo sugestivo na freguesia do Algoz. Surge também ilustrada a construção em taipa no Monte das Pitas, técnica que hoje em dia caiu em desuso devido à maior utilização da alvenaria de tijolo e cimento.

O concelho de Silves forneceu ainda outro caso de estudo para esta obra, a casa da Ponte de Santo Estêvão, à beira da E.N. 124, ainda hoje existente e habitada, onde se observou a construção em desníveis aproveitando o declive do terreno e o afastamento da área funcional e de criação dos animais, donde consta o forno, os pombais/galinheiros e a eira, emementos bem destacados da área habitacional.

Antes de terminar vou abordar o mapa tipológico delineado pelos autores no sentido de demonstrar genericamente o tipo de habitação praticada na área de estudo. Nesta área geográfica do concelho de Silves observou-se que as tipologias mais habituais eram as denominadas Habitação no Baixo Algarve e a do Algarve Central. As principais características da Habitação do Baixo Algarve seriam a cobertura de uma ou duas águas, mais comummente a segunda opção, com ou sem chaminé, a alvenaria de taipa, pedra ou tijolo e os pavimentos em tijoleira ou terra batida. Nas áreas funcionais e destinadas aos animais poderíamos encontrar forno, estábulo, pocilga e galinheiro. A habitação do Algarve Central difere essencialmente pela utilização de cobertura mista de telhado e açoteia utilizável, alvenaria de calcário, tijolo ou taipa e habitualmente os vãos seriam guarnecidos a cantaria.

A Arquitectura Popular em Portugal reveste-se de considerável importância por contar com uma forte componente de registo fotográfico e desenhos, que para além de ilustrarem bem os conteúdos, permitem-nos avaliar o que se passou nos quase 50 anos que nos separam do lançamento da obra e constatar a riqueza da arquitectura popular que se praticava no Algarve rural até meados do século XX, assim como nos exemplares ainda existentes e habitados, o que foi descaracterizado ou adaptado. O levantamento serviu na época como ponto de situação da arquitectura vernácula e tornou-se obra de referência para as gerações futuras, assim como um registo básico das matérias-primas e soluções construtivas. Um excelente ponto de partida que ainda hoje nos motiva a saber mais sobre o tema.


sábado, outubro 16, 2010

Lançamento do Livro -"Simbiose Telúrica de Fragmentos do Ser" de Manuel Madeira

Passo a transcrever a mensagem que me foi enviada:

Boa tarde

A Sociedade de Instrução e Recreio Messinense organiza, no dia 23 de Outubro, pelas 17 horas, na sua sede, a apresentação do livro de poesia de Manuel Madeira, "Simbiose Telúrica de Fragmentos do Ser", o mais recente livro lançado por este poeta messinense.

Manuel Rodrigues Madeira nasceu em S. Bartolomeu de Messines, em 1924, mas tendo ficado órfão de pai, muito cedo foi para Faro, e depois para Olhão, onde viveu até aos 25 anos, altura em que se fixou em Lisboa, onde permaneceu durante mais de 40 anos.

Perseguido pela PIDE, Manuel Madeira esteve preso e foi torturado várias vezes. A sua actividade política iniciou-se ainda na sua juventude, quando foi um dos elementos primordiais na difusão do MUD Juvenil, no Algarve, especialmente em Messines e Silves. Após o encontro de Bela Mandil, foi preso pela primeira vez, levado para Faro, depois para Caxias e finalmente para o Aljube. Após a prisão, voltou ao Algarve e às actividades políticas, pelo que voltou a ser preso e desta vez foi também demitido do emprego e expulso da função pública.

Conseguiu um novo emprego e não desistiu da sua luta, pelo que foi preso mais duas vezes, sendo muito torturado.

Em 1991, alguns anos após a reforma, Manuel Madeira regressou a Olhão, onde vive actualmente

No seu trabalho poético, ao longo da sua vida, colaborou com poesia e ensaios em publicações clandestinas de divulgação cultural, no Algarve, nos anos quarenta e posteriormente em jornais e revistas literárias do país. Nessa altura, foi co-fundador do jornal de Olhão “Clamor”. Muitos dos seus trabalhos literários foram cortados pela Censura.

Figura na “Antologia de Poesia Portuguesa do Pós-Guerra, 1945-1965”, da Editora Ulisseia. Foi co-fundador da revista literária “Sol XXI” e nela colaborou com poesia e ensaio. Reuniu em livro parte da sua poesia, de 1949 a 2004, sob o título “No Encalço do Real Inalcançável”, Editorial Minerva, Lisboa 2005. Em 2007 publicou “Um Pouco de Infinito em Toda a Parte”, pela Editora Atelier; em 2008 “Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira”, pela Editora Labirinto e em 2009, publicou “À Descoberta das Causas no Sortilégio dos Efeitos”.

Este seu livro mais recente “Simbiose Telúrica de Fragmentos do Ser”, é publicado pela pela POP Sul (Editora 4 Águas) e tem prefácio do médico silvense Varela Pires.

Compareça e divulgue a nossa iniciativa.

O Presidente

Manuel Neto dos Santos

segunda-feira, outubro 11, 2010

Outras Viagens, Outros Olhares – O Turismo no Algarve

Fugindo de novo ao tema proposto inicialmente pelo blogue coloco aqui um artigo que me foi pedido para realizar acerca da exposição Outras Viagens, Outros Olhares patente no Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira. Originalmente publicado há umas semanas no Jornal do Algarve e agora disponível no blogue a quem ainda não teve oportunidade de o ler.

EXPOSIÇÃO “ALGARVE – DO REINO À REGIÃO”


Outras Viagens, Outros Olhares – O Turismo no Algarve

Marco A. Santos (CEPHA/UAlg)



A exposição Outras Viagens, Outros Olhares, inserida no projecto “Algarve - Do Reino à Região” da Rede de Museus do Algarve, patente no Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira até ao final do ano, baseia-se essencialmente em testemunhos de vários autores sobre o Algarve, procurando traçar um retrato do turismo da região desde o século XIX até finais do século XX. O período contemplado acompanha uma época de grandes transições políticas no nosso país: a verificada do governo monárquico para o republicano e deste para o regime autoritário que permaneceu até 1974, sem que, no entanto, se façam grandes alusões políticas ou da influência de carácter politico na actividade turística e sua evolução na região algarvia. Uma ascensão observável desde as viagens oficiais e científicas dos séculos anteriores ao verdadeiro turismo de lazer que se afirmou fortemente no pós - II Grande Guerra, especialmente a partir dos anos 60, por outras palavras: o trajecto percorrido desde o Algarve rural e piscatório, quase inacessível (dada a fraca qualidade e cobertura dos meios de comunicação terrestres descritos no século XIX e inícios do XX) até ao ambiente quase cosmopolita que se verificou a partir da década de 60, onde pontificavam as visitas e estadias de celebridades nacionais e internacionais que a exposição trata de frisar.

O fascínio exercido por locais como Monchique, Praia da Rocha e Sagres/Cabo de São Vicente são tidos como a génese do interesse pelo Algarve e, de facto, estes lugares fizeram afluir à região considerável número de forasteiros, de curiosos a investigadores. A titulo de exemplo, pode-se mencionar Hermann Friedrich J. F. Von Maltzan, responsável por uma obra sobre o Cabo de São Vicente e a sua visita ao Reino do Algarve, ou Charles Bonnet (não referido nesta mostra, autor de Algarve, Description Geógraphique et Géologique de Cette Province), que nos últimos dois séculos foram “descobrindo” e divulgando diversos locais de interesse. Por outro lado, o desenvolvimento das indústrias, sobretudo a conserveira e a corticeira, trouxeram também empresários experientes, com iniciativa e que viram no crescente turismo um potencial económico a não desperdiçar. Caso de Caetano Feu ao apostar na criação do Casino da Praia da Rocha, um tipo de infra-estrutura que se tornou recorrente. Ao longo das décadas foram surgindo outros, como o de Monte Gordo em 1933, cujo projecto arquitectónico original foi da autoria de Luís Cristino da Silva, ou mesmo o de Armação de Pêra que viu o seu espaço de jogos e entretenimento aparecer em 1958.

A complementar os painéis expositivos encontra-se em vitrinas um pequeno acervo documental, constituído por obras de carácter turístico, fotografias de época, actas e planos autárquicos de actividade turística e também programas do Cinepax em Albufeira. Deste conjunto destaca-se a publicação Algarve, datada de 1947, com capa ilustrada pela artista Maria Keil e texto, em inglês, de Alexander H. Stuart, editada pelo Secretariado Nacional de Informação, Turismo e Cultura Popular (SNI), órgão oficial responsável pelo turismo e divulgação de Portugal no estrangeiro durante o período correspondente ao Estado Novo.

O vídeo com testemunhos sobre o Algarve durante as últimas décadas, cujos relatos de Lídia Jorge, Marcelo Rebelo de Sousa, Nuno Aires e Romero Magalhães traçam de forma interessante as mudanças que têm ocorrido na região revela-se útil à compreensão dos restantes conteúdos expositivos. O recurso ao arquivo de imagens da RTP mostrou-se uma mais valia para esta pequena realização, onde o cariz etnográfico de muitas dessas imagens recupera memórias de actividades e paisagens agora fortemente descaracterizadas, dando-as a conhecer aos turistas de hoje.

Para finalizar, queria apenas tocar alguns pontos que julgo fundamentais, mas que vimos descurados nesta exposição, falo por exemplo da notória falta de ligação entre o que nos é apresentado e a(s) realidade(s) sociopolítica(s) que o país atravessou no período focado, ainda que o vídeo consiga colmatar de forma singela essa lacunas.

A parca referência a instituições e infra-estruturas que se revelaram de maior importância para o aumento do fluxo turístico neste período de tempo, como o já falado SNI (a nível institucional) e as suas publicações, das quais se pode destacar a revista Panorama, ou a criação em Albufeira de uma colónia da FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, cuja inspiração é proveniente dos modelos italiano e alemão, o primeiro conhecido como Dopolavoro e o germânico como Kraft durch Freude ). Exemplos de outras estruturas não referidas, ou que surgiram na exposição de forma muito sintética, mas que desenharam (também) o quadro do Algarve turístico actual, são o importante Aeroporto Internacional de Faro inaugurado em 1965, possibilitando a aproximação da região a muitos pontos do globo; a chegada nos anos 70 da actual estrada IC1 ao Algarve, potenciando o movimento do turismo doméstico; ou o surgimento de aldeamentos, como o pioneiro projecto de Victor Palla para a Aldeia das Açoteias no concelho de Albufeira. Factores que devem ser tidos em consideração no estudo desta temática, assumindo a devida importância num evento do género. No entanto, apesar de algumas lacunas, torna-se interessante visitar Outras Viagens, Outros Olhares, sobretudo se a entendermos como uma primeira abordagem ao tema do Algarve enquanto região turística, podendo ser atractiva para um largo público, “os algarvios” e os turistas e viajantes da actualidade.

De salientar ainda o horário de Verão, de 3ª feira a Domingo entre as 18h e as 24h, perfeitamente adequado a um tempo de férias.


sexta-feira, setembro 10, 2010

A Gazeta dos Caminhos de Ferro e Armação de Pêra- Algumas sugestões de valorização cultural.

O Verão, estação que rapidamente se aproxima do seu término, traz todos os anos ao Algarve uma grande afluência de turistas, sendo este fenómeno várias vezes estudado do ponto de vista económico mas raramente do histórico. Recentemente tive acesso a alguns números da Gazeta dos Caminhos de Ferro que me suscitaram interesse, especialmente devido a uma sequência de artigos intitulados O Algarve e o seu Turismo, o que me levou à elaboração deste texto.
No entanto, antes de começar parece-me conveniente fazer uma breve apresentação da publicação onde se inserem estes artigos, assim como tecer algumas considerações sobre o autor dos mesmos. A Gazeta dos Caminhos de Ferro era uma publicação fundada em 1888 por Leonildo de Mendonça e Costa que abordava aspectos técnicos da rede ferroviária nacional e das colónias, mas também o que se fazia neste campo pelos mais diversos países. Eram também apresentadas temáticas diversas, como a do Portugal pitoresco que tanto se tentava valorizar naquela época, entre outras. À data de publicação deste série de artigos dedicados ao Algarve esta gazeta era propriedade das herdeiras de Carlos D'Ornellas, o seu anterior director e proprietário, e a direcção estava a cargo do Engenheiro Luís da Costa, também ligado a estas questões dos transportes terrestres.
Agora, que a publicação já está brevemente apresentada, focaremos o autor da série O Algarve e o seu Turismo, o Engenheiro José Manuel Vieira de Barros, profissional da Direcção dos Caminhos de Ferro de Sul e Sueste desde 1923, mais concretamente nos Serviços de Via e Obras de Construção deste organismo. Passou depois para a Direcção-Geral dos Caminhos de Ferro onde permaneceu até 1951, neste ano prosseguiu carreira na recém-criada Direcção -Geral de Transportes Terrestres, onde permaneceu, pelo menos, até 1964, ano da publicação desta série de artigos. Nas palavras da Gazeta, o engenheiro José Vieira de Barros, era tido como “Autoridade em assuntos relativos aos transportes terrestres, é-o também em questões que se referem à indústria do turismo.”. Pelo que pude apurar na leitura do conjunto, José Manuel Vieira de Barros seria conhecedor das redes viárias da costa do Sul da Europa, especialmente do caso francês, sendo possivelmente um estudioso da relação entre a melhoria/criação das vias de comunicação terrestre e o crescimento turístico.
A série O Algarve e o seu Turismo, composta por onze artigos, estende-se do nº 1829 ao nº 1845 da Gazeta , sendo o excerto que proponho abordar proveniente do número 1837, o VII artigo do conjunto. Nesta peça o autor continua a tecer as suas considerações sobre o litoral algarvio traçando um retrato da situação em 1964 e sugerindo o que seria necessário fazer para potenciar a experiência turística. Começa pela Praia da Rocha, e seguindo sempre pela orla costeira até ao término, e deixando também em aberto a temática a tratar no próximo texto, que serão já as praias do concelho de Albufeira. Mas pelo meio vai tecendo algumas considerações, ainda que breves, sobre Armação de Pêra e a sua praia.
Ao iniciar a sua abordagem a Armação faz uma rápida localização geográfica tomando como ponto de referência, a não muito distante ermida da Sr.ª da Rocha, passando logo depois a apresentar de forma elogiosa tanto a povoação como a praia, chegando a dizer que “Esta praia constitui uma autêntica esperança turística, pois, além de ter ótimas (sic) condições para o efeito está com razão a ser muito procurada.”. Continua discorrendo sobre o carácter ideal do clima e do local, apresentando-o como “limpo e extenso” e com um mar dócil, geralmente com águas de boa temperatura. Vieira de Barros refere a existência dos, ainda recentes, Hotel Garbe e o Casino como parte do franco crescimento da “povoaçãozinha”, como chama à aldeia no início deste excerto, fazendo ainda referência a uma pensão de 1ª classe. Também a recente contemporânea marginal ladeada por “edificações de bom gosto” é tida como símbolo de desenvolvimento. Para o autor, impunha-se ainda a criação de mais alojamentos, campismo e espaços de lazer para que Armação fosse a esperança turística que tanto prometia.
Este quadro, ainda que breve, revela a génese da estância balnear que hoje conhecemos, aprazível naquela época e sem tantos atropelos como os que se têm vindo a acumular ao longo de mais de quatro décadas e que tornaram a actual vila num sítio que só se faz valer pela sua praia, pois pouco mais pode oferecer. A tipicidade da “povoaçãozinha” piscatória desapareceu a nível de marcas arquitectónicas, urbanismo e vivências da população, pois hoje pouco há a destacar, ou os resquícios existentes não estão valorizados. A excessiva pressão turística não permite desfrutar devidamente a praia, assim como a escassa oferta cultural tornam Armação de Pêra num caso a pensar. A carência de muitas das exigências que os turistas cada vez mais requisitam (pois sol e praia já não são predicados únicos para o turismo actual) faz-se sentir e joga contra Armação de Pêra se a compararmos com outros destinos não muito longínquos. Felizmente a estrutura hoteleira acima referida ainda funciona, mas há algumas décadas que o espaço recreativo que era o Casino não, e sabe-se que para além do jogo, este tipo de espaços dispõem várias vezes de uma oferta de qualidade cruzando, as mais diversas formas de arte.
O facto de se tornar impraticável uma tranquila visita tanto à praia como à vila em pleno verão, acaba por ser um factor negativo, assim como o desprovimento de uma intervenção cultural activa não focada apenas no período estival, mas sim na continuidade ao longo do ano, pois a população residente dela deve usufruir tanto quanto os turistas. A autarquia e outros órgãos, onde se inclui o sector privado, bem podiam responder a estas necessidades e, mesmo no âmbito do programa Allgarve, ou outros mais adequados, trazer actividades e eventos de qualidade à vila, valorizar o antigo e subaproveitado Casino, ou ainda promover animações de rua.
A recolha de testemunhos, como imagens antigas ao estilo do projecto Algarve Vintage desenvolvido pelo Turismo do Algarve, ou artefactos, seria um bom ponto de partida para a organização de uma exposição futura, que, apelando às memorias e identidade da vila, motivasse a visita, e, ao mesmo tempo, também pudesse mostrar como a Armação descrita na Gazeta dos Caminhos de Ferro era bem mais aprazível proporcionando uma melhor vivência estival que a actual.

sábado, maio 08, 2010

Os workshops de actividades tradicionais enquanto ferramenta de divulgação e preservação.

Durante a feira Ruralidades realizada no início deste mês no espaço da Fissul em Silves tive a oportunidade de realizar duas pequenas sessões práticas de trabalhos tradicionais/artesanais, uma delas a execução de esteiras em cana e tabua, com Ana Silva e José Vitorino e outra de manufactura de uma peça cerâmica em roda de oleiro, esta última uma actividade que há muito tempo pretendia ter oportunidade de tomar contacto. Dei por mim a pensar na importância deste tipo de actividades junto do público para a divulgação do trabalho artesanal de cariz tradicional e preservação das técnicas. A divulgação é um passo importante para a manutenção deste tipo de ofícios, logo a sensibilização junto da população é o primeiro passo a tomar.

A oportunidade dada pela autarquia a estes artesãos para divulgarem o seu trabalho e ao mesmo tempo permitir ao visitante aproximar-se ou tomar contacto com as técnicas centenárias, senão milenares, é algo que tem que ser melhor aproveitado pelos locais e visitantes, proporcionar a realização destes workshops poderá ser o princípio de um processo mais activo de salvaguarda e valorização dos ofícios tradicionais do concelho. Cabe também às associações a tarefa de dinamizar as actividades e a sua divulgação, como é por exemplo o caso da Artexelb, associação da qual pelo menos três monitores dos workshops faziam parte.

O contacto é essencial para despertar a curiosidade do público e também como forma de valorização do produto acabado, logo ao ter a oportunidade de executar temos uma melhor ideia do trabalho e material envolvido na manufactura das peças de artesanato, que não raras vezes é subvalorizado precisamente pelo facto das pessoas não terem a mínima noção de tudo o que envolve o processo produtivo.
A questão da iniciação das camadas mais jovens e não só é também pertinente e quem sabe se através destas actividades de divulgação não se está a abrir a porta a alguém para o mundo dos ofícios tradicionais, ou seja o garante da continuidade dos saberes. Da próxima vez que lhe aparecer uma oportunidade de realizar uma experiência deste tipo não se iniba, aproveite e vai ver que será interessante e instrutivo.

segunda-feira, abril 19, 2010

No Rain in Portugal But Tourists Pour In - Breve interpretação de um cartaz turístico do Secretariado Nacional de Informação .


O turismo em meados do século XX foi um assunto já aqui abordado à laia de intróito nos artigos respeitantes ao antigo casino de Armação de Pêra e ao Hotel Garbe localizado na mesma vila. Desta vez será feita uma abordagem, ainda que não directamente ligada ao concelho, à forma como os potenciais turistas eram assediados a passar férias no nosso país nas décadas de 40/50 e 60 do século XX através do meio oficial do estado, ou seja o Secretariado Nacional de Informação, Turismo e Cultura Popular (adiante apenas S.N.I.). Tomo como base para este artigo uma composição da autoria do artista gráfico Nuno Costa presente na revista Panorama Nº 13, III Série de Março de 1959 cujo slogan deu o título a este artigo, No Rain in Portugal But Tourists Pour In. O cartaz criado por Nuno Costa é de facto um interessante exemplo da imagem que o S.N.I. queria divulgar do país para os mercados exteriores, frisando o que torna o país tão aprazível, o período alongado de horas solares existentes por ano, e claro está os períodos geralmente curtos de pluviosidade, que na época estival tendem a não ser intensos e na maior parte das vezes inexistentes. Qualidades que ainda hoje nos valem milhares de turistas, tornando Portugal uma opção muito válida, mas que requer, como já antes foi afirmado, o acompanhamento de conteúdos de interesse como a preservação do Património Cultural e oferta de qualidade nesse campo.

Não menos interessante é a segunda parte do slogan, But Tourists Pour In, que indica ou tenta fazer passar a ideia que a procura à época já era bastante, e a julgar pelas figuras do cartaz variadas, logo de várias nacionalidades, sendo possível identificar entre outros, ainda que as figuras estejam bastante estilizadas, um escocês, um alemão, um indiano e um elemento vestido com um traje africano reconhecíveis com o recurso a elementos da identidade nacional dos países/ continentes em questão.

Como elemento central e em grande destaque, temos um sol, vestido de campino, como que a marcar a identidade portuguesa, que de gesto simpático vai recebendo os elementos vindos do exterior, aqui como já pudemos verificar, sabiamente identificáveis pelo traje “tradicional” dos seus países. É de notar também para reforçar a ideia que se quer passar, a preferência dada às cores quentes, que acrescentam um ar ainda mais estival à imagem propagandística.

Esta composição mostra como o S.N.I. tinha uma máquina de propaganda inteligente e cuidada que tentava seduzir o turista através da conjugação dos factores já vistos aqui e que tornavam o Portugal de meados do século XX um destino exótico e de certa forma “preservado” com as suas tradições, que como sabemos em muito moldadas por este organismo desde a sua fundação, ainda como Secretariado da Propaganda Nacional, e com as enormes campanhas da DGEMN no património construído do país. A ideia de que já vão choviscando/chovendo turistas, tentava indiciar o aumento da procura pelo país, e fazer passar uma grande abertura à multiculturalidade, facto que na realidade não se verificava. Basta olharmos para a situação africana, onde os movimentos de libertação nunca foram bem aceites, tendo como se sabe desembocado na longa Guerra Colonial, contenda que demonstra a falta de consideração pela cultura de povos que tantos séculos tiveram que estar sob o controle de outro país . Outro exemplo evidente foi o proteccionismo comercial e cultural que se fez sentir que acabava por vedar o acesso de certos bens exógenos, tanto materiais como culturais, ao grosso da população.

O cartaz turístico assumiu uma das formas mais interessantes das artes gráficas do nosso país nos meados do século passado, tendo mesmo sido instituído um concurso a ele dedicado, organizado pelo S.N.I. em 1945. A propaganda turística emitida pelo Secretariado era uma forma de “aliviar” a imagem do país para o exterior, que se encontrava desgastada pela situação política e pelo facto de as relações externas serem muito fechadas, era dado ênfase ao folclorismo e tradição e aos óptimos recursos naturais que ainda hoje dispomos para a prática do turismo e da helioterapia, em voga na época, dando a ideia de um local com muitos pontos ainda intocados, exótico face a um mundo cada vez mais miscigenado por via da internacionalização, pois o conceito globalização ainda não estava tão instituído. Para os menos preocupados ou sensíveis às questões políticas e culturais esta imagem que em nada exteriorizava o real estado do país, os cartazes do S.N.I. cumpriam muito bem a sua função apresentando um país aprazível e amistoso para todos, um local aberto ao mundo.



sábado, fevereiro 13, 2010

Mercado Municipal de Silves- Intervenção Futura, um apelo à salvaguarda das caracterísiticas arquitectónicas do edifício.




O Mercado Municipal de Silves é, ainda que abafado entre toldos, grelhadores e uma obra por concluir com uma cota bastante superior, um dos edifícios mais carismáticos da pequena cidade. Recentemente li a notícia de que vai sofrer obras de beneficiação, que de facto são necessárias a bem dos comerciantes e consumidores. No entanto espero que as suas características arquitectónicas sejam mantidas e, quem sabe, até um pouco devolvidas à sua aparência original de modo a que população e visitantes usufruam um pouco mais da vista do imóvel.

O actual edifício é um exemplar arquitectónico de gosto “mais ou menos oficial” do sistema político vigente à época (anos 40/50 do séc. XX), digo “mais ou menos oficial” porque esta questão não pode ser tão facilmente padronizada, mas que circulou especialmente em edifícios públicos um gosto ou repertório comum com a utilização de determinadas soluções arquitectónicas é um facto.

Esta arquitectura conhecida como “do Estado Novo” ou “Português Suave” é muitas vezes desvalorizada, não só pela sua relativamente recente execução e aplicação, mas também pela sua conotação com o regime ditatorial que vigorou no país, mas no entanto não é desprovida de interesse ou uma “memória a apagar” como infelizmente já li escrito por alguém certamente ignorante.

Um dos aspectos mais fortes do imóvel, nas palavras de José Manuel Fernandes, são o seu coruchéu telhado e esfera armilar junto com o brasão de armas da cidade, a evocar as torres municipais de tradição medievalista, ou a assumir-se como tal. No caso de Silves, logo à entrada da cidade, pode-se tirar, ainda que com reservas, a segunda conclusão.

Há que fazer um esforço por manter estes exemplares de arquitectura que são uma memória histórica e símbolo identitário da população, sem as desfigurar ou descaracterizar demasiadamente .

O melhoramento e modernização da estrutura tendo respeito pelas pré-existências é um sinal de conhecimento e apreço pelo passado que para o bem ou para o mal fez parte da nossa formação e identidade enquanto população. Estas medidas são muito importantes no caso da história recente, que geralmente é a que maiores atentados sofre por se julgar “de ontem” e ainda estar muito presente na memória colectiva, mas não o será, de forma tão clara, daqui a décadas ou séculos se não forem devidamente preservados testemunhos e registos. A intervenção sim, é necessária e bem vista, a descaracterização do edifício é que terá que ser tomada como um risco neste capítulo e é esse o meu apelo para que a emblemática “praça” mantenha as suas características e continue como marca identitária da cidade.


Leituras efectuadas:


Fernandes, José Manuel. Janeiro, Ana. Arquitectura no Algarve - Dos Primórdios à Actualidade, Uma Leitura de Síntese. Edição da CCDRAlg (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve) e Edições Afrontamento, 2005.


FERNANDES, José Manuel – Português Suave – Arquitectura do Estado Novo, IPPAR, 2003


Fonte da imagem:
Fernandes, José Manuel. Janeiro, Ana. Arquitectura no Algarve - Dos Primórdios à Actualidade, Uma Leitura de Síntese. Edição da CCDRAlg (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve) e Edições Afrontamento, 2005, pág. 93