domingo, janeiro 27, 2008

Alcantarilha- Portas quinhentistas podem ser motivo de interesse turístico


(...) Em Alcantarilha, apesar de pequena povoação, mas mesmo assim muralhada nos finais do século XVI, existe um bom número de portas quinhentistas. Os motivos são muito simples e aproximáveis aos de Lagos. Surge aqui um exemplar menos vulgar, com cantarias de arestas limadas e curiosa figuração humana. (...)

Manuel Francisco Castelo Ramos, Decoração Arquitectónica Manuelina na Região de Silves (Séculos XV- XVI) in Xelb 3, 1996

Há poucos dias, sem saber propriamente onde ir e após ter lido o artigo do qual citei o excerto apresentado, lembrei-me de fazer um percurso da arquitectura civil manuelina em Alcantarilha, tendo como principal objectivo conhecer melhor e in loco esta realidade do nosso património cultural naquela vila do concelho de Silves, tendo claro como principal ponto de curiosidade a cantaria descrita por Manuel Ramos naquele artigo.
Apesar de adaptada a um estilo de vida actual, a casa onde está inserida esta cantaria chama a atenção pela peculiaridade do vão e ombreiras da sua porta, apresentando motivos e técnicas menos comuns no modo de lavrar a pedra na arquitectura civil manuelina que sobreviveu até aos nossos dias. As pequenas figurações nas bases das ombreiras são também curiosas, pequenos rostos com um corpo esguio “apertados” entre enrolamentos, assim como o motivo central do vão, apresentando este apenas o rosto ladeado de outros motivos. Esta solução arquitectónica bem que poderia ser mais um motivo de interesse turístico de Alcantarilha, assim como os outros vãos manuelinos existentes na vila, proporcionando passeios temáticos onde pudesse ser mostrado o património edificado da vila, dando especial ênfase ao conjunto tardo-medieval e vestígios das muralhas, ainda é possível perceber o núcleo muralhado da vila pela sua fisionomia, algo muito perceptível numa deambulação a pé pelas ruas.
A realização, ainda que esporádica, de passeios temáticos acompanhado por um especialista convidado para o efeito é uma das formas de promover o património cultural de uma localidade, e tem sido aplicado com sucesso em vários centros históricos do nosso país com excelentes resultados, desde que também exista uma divulgação eficaz.
A criação e renovação da imagem turística da vila poderá passar também pela divulgação a nível gráfico destes pontos de interesse histórico menos conhecidos, podendo despertar a curiosidade de novos públicos interessados noutras vertentes menos vistas do nosso património cultural.
É necessário dar ênfase a aspectos peculiares por vezes presentes na arquitectura civil, pois a história não é feita apenas de grandes edifícios, na sua maioria de características militares ou religiosas, mas sim por tudo o que compõe os nossos núcleos habitacionais.

Foto: Susana Martins.

Artigo originalmente publicado no Terra Ruiva nº 86 de Janeiro de 2008.