quarta-feira, janeiro 11, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- Os conjuntos de Eirado e Cisterna



 A captação e armazenamento de água para suprir as necessidades a nível de consumo e utilização agrícola desde cedo se tornou uma das preocupações primordiais das populações humanas. Em locais onde a profundidade dos lençóis ou a distância dos cursos de água são significativas tiveram que se criar alternativas para garantir a sua obtenção e fornecimento. Regiões onde por vezes a pluviosidade é irregular, como é o caso do Algarve, têm na água um recurso frequentemente escasso, logo as chuvas têm sido aproveitadas e armazenadas com recurso a cisternas cujas tipologias e formas de captação podem variar. Desde as águas canalizadas dos telhados e açoteias para a cisterna como para o foco deste artigo, os conjuntos de eirado e cisterna.
O eirado,  também denominado por eira de cisterna. Na obra Arquitectura Popular em Portugal surge assim descrito (…) “Se não é suficiente a água recolhida, recorre-se então ao eirado, que consta dum vasto terreiro, ao nível do terreno, revestido com ladrilhos e com declives para encaminhar a água das chuvas para um pequeno orifício, que comunica com o interior da cisterna, de onde será tirada por meio de uma boca semelhante à dos poços.
Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superfície exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraços, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.”
(AAVV, 1988).  É de notar a grande polivalência desta solução que nos meses secos teria uma utilização diversa da que até aqui vimos. Era tapado o orifício de colheita de água, para evitar a entrada de impurezas, e serviria por exemplo para a separação dos cereais da palha e para a secagem, sobre esteiras, de frutos como os conhecidos figos e amêndoas.
A distribuição espacial destes conjuntos eirado/cisterna é mais abrangente que a sugerida pelos autores que fizeram o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa que veio dar origem à obra atrás citada, sendo conhecidos para além das freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines, Tunes e Porches, que os autores apontavam. Já foram identificados exemplares noutros locais entre eles no concelho de Albufeira e mesmo no concelho de Vila do Bispo, conhecendo-se neste último estrutura que  serviria de apoio a uma armação de pesca existente na área. A ideia que se trata de uma prática circunscrita a quintas do barrocal algarvio é assim substituída por outra que alarga a sua distribuição geográfica, ainda que de forma mais pontual, à orla costeira. Teresa Gamito na sua obra O Algarve e o Magreb refere-nos também o caso de Benagil, junto à costa (…) "onde as captações das águas pluviais se faziam não só através dos telhados como também de grandes eirados em encosta, escavados na rocha e que gozavam do mesmo tratamento de purificação e limpeza. (Gamito, 2007).
A cal assume como é notório um papel importante na construção, manutenção e limpeza destas estruturas, pois este material para além da produção de argamassas com bom efeito de estanquicidade e reguladora da acidez das águas. A frescura e purificação dependiam também desta matéria que oferece efeito desinfectante tendo uma cisterna para ser bem mantida que ser limpa e caiada pelo menos de dois em dois anos (idem). Testemunhos revelaram que era prática deitar cal viva ainda em pedra para o interior e deixar esta ferver e dissolver-se na água para purificar. Ainda a nível da construção era comum aproveitar-se a terra proveniente da escavação da cisterna para a taipa na edificação das casas.
Ainda pouco explorados do ponto de vista do interesse patrimonial e identitário os conjuntos de eirado e cisterna representam uma herança de séculos e durante muito tempo, anteriormente à generalização das redes de abastecimento de água, a única alternativa para garantir aquele líquido vital. A chegada das redes de canalização e esgotos aliadas ao declínio agrícola e consequente transição da população para os núcleos urbanos, depressa fizeram esquecer a importância destas estruturas. Os eirados conferem uma aparência distinta às propriedades onde se encontram e é normal encontrar alguns exemplares onde nos muretes eram moldados bancos para permitir o repouso naquela zona muitas vezes fronteira à casa. Além de embelezar era dada mais uma utilização ao espaço transformando-o uma zona de fresco. Do ponto de vista turístico e de investigação temos um objecto etnográfico de interesse que permaneceu praticamente imutável durante séculos e teve a sua utilização em pleno até há poucas décadas atrás.
Podemos afirmar que apesar da sua antiguidade os conjuntos de cisterna e eirado são ainda bastante actuais, pois com o aumento dos custos de fornecimento, assim como a irregularidade da pluviosidade e a já há muito anunciada escassez tornam esta solução ainda bastante viável para quem possui uma propriedade com este equipamento. Muitos estudos apontam que determinadas soluções ancestrais, sendo esta uma delas, devem fazer parte da arquitectura contemporânea de forma a torná-la mais sustentável e com uma identidade mais vincada.  Outro factor de actualidade é o retorno de muita gente aos campos que acaba por adquirir imóveis antigos e recuperá-los dando nova vida e utilizações aos eirados, salvaguardando e valorizando-os enquanto elemento que confere identidade e uma herança de gerações anteriores.
 
Obras consultadas:
AAVV (1988),
Arquitectura Popular em Portugal, Vol 3., 3ª edição, Lisboa, AAP.

Gamito, Teresa Júdice (2007),
O Algarve e o Magreb 711-1249, Faro, Universidade do Algarve pp. 74-75

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