quinta-feira, junho 21, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- Os Trabalhos de Massa




A arquitectura passa invariavelmente por um processo de transferência de influências do círculo erudito para a habitação popular, e isto reflecte-se a nível decorativo, de soluções arquitectónicas e selecção de materiais. Tal processo aconteceu também com os chamados “trabalhos de massa” ou técnica de ornatos de alto e baixo relevo.
Nos finais do século XIX, inícios do XX vulgarizou-se e passou a figurar no conjunto de soluções da arquitectura vernácula, especialmente nos meios urbanos do Algarve central, embora existam vários exemplares em meio rural ou deslocados deste enquadramento geográfico, o que não torna esta delimitação e espaço temporal uma regra.
Alguns dos trabalhos em massa mais notáveis conhecidos no Algarve estão em Faro ou nos seus arredores, refiro-me à Horta do Ourives, ao celeiro da Cerca de S. Francisco ou à Igreja da Ordem Terceira do Carmo, todos exemplares de arquitectura nobre e religiosa de Setecentos. Há ainda que referir os solares das áreas peri-urbanas ou mesmo rurais como, por exemplo, a “Quinta dos Macacos” actualmente fronteira à Estrada Nacional 125 ou mesmo outras nas proximidades de Tavira. Após este período a técnica foi-se vulgarizando passando dos estratos superiores da sociedade para a burguesia até finalmente se inserir no repertório da arquitectura popular, cujo caso mais paradigmático são as conhecidas casas com platibanda ornada, mas podem, a título de exemplo, verificar-se também nos vãos de portas e janelas e socos das casas. À medida que o uso desta solução se expandiu a procura pela cantaria foi também diminuindo, vendo-se em muitas situações substituída pelos ornatos em baixo relevo.
Incontornável na nossa construção tradicional a cal é a matéria-prima predominante das argamassas utilizadas para a execução dos trabalhos de massa, e quando misturada com diversos outros materiais permite uma grande variedade de acabamentos. Materiais esses que podem ir da areia, ao pó de pedra , “baguinho da ribeira”, pigmentos naturais entre outros.
Após a fachada preparada e a argamassa para os ornatos pronta, a execução da técnica conta diversas vezes com o apoio de moldes para assegurar as formas desejadas. A remoção dos excessos de massa e acrescento noutros lados fazem parte deste trabalho que apoiado nos moldes se vai compondo à medida que é trabalhada.
A opção pela massa em vez da cantaria na arquitectura popular esteve ligada à diminuição de custos, mas também às possibilidades que esta solução permite pela sua plasticidade, o que no calcário da região implicaria em muitos casos um maior grau de dificuldade na execução, e consequentemente maior mestria e mão de obra. A preparação da cantaria é muito mais onerosa pois passa por um maior número de processos e é mais exigente no transporte que a sua alternativa, a cal que está presente de início na grande maioria das obras, para a realização das argamassas que são feitas conforme o uso pretendido.
A “democratização” desta solução trouxe uma abertura à criatividade dos proprietários e mestres, e passaram a estar mesclados motivos de influência erudita com outros do quotidiano ou imaginário popular. A decoração assume ainda mais um papel de personalização e dignificação das moradias, que mais ou menos modestas se diferenciavam umas das outras. Em pleno século XX com uma maior difusão e penetração das correntes artísticas é notório nas platibandas e no cimo dos vãos profundas influências do geometrismo da Art-Déco, assim como a diferença na paleta cromática em detrimento da pedra natural.
O estudo, registo e salvaguarda deste tipo de trabalhos ainda não estão suficientemente desenvolvidos, é importante executá-los visto que muitos exemplares degradam-se, ou são substituídos em renovações duvidosas ou demolidos para dar lugar a construções modernas. A utilização dos ornatos em massa é uma das características da arquitectura popular algarvia que merece ser potenciada e divulgada de modo a renovar o interesse pelo tema e também ser motivo de interesse turístico. A criação de linhas de produtos inspirados pelas formas dos trabalhos em massa é já uma realidade que transparece o significado destes para a identidade e imagem regionais, um cartão de visita bem decorado.

Leituras recomendadas:
Fernandes, José Manuel; Janeiro, Ana (2005)
Arquitectura no Algarve - Dos Primórdios à Actualidade, Uma Leitura de Síntese. CCDRAlg / Edições Afrontamento, Lisboa

Fernandes, J. Manuel; Janeiro, Ana (2008).
A Casa Popular do Algarve, espaço rural e urbano, evolução e actualidade. CCDR Algarve/ Ed. Afrontamento, Lisboa

Santos, Marta (2008).
Argamassas e Revestimentos”, in Materiais, sistemas e técnicas de construção tradicional: Contributo para o estudo da arquitectura vernácula da região oriental da Serra do Caldeirão, CCDRAlg/ Edições Afrontamento, s.l., pág. 116

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