domingo, junho 25, 2006

Abicada





Desta vez vou extravasar a área inicialmente delimitada como foco deste espaço e irei abordar as muito esquecidas ruínas romanas da Abicada no concelho de Portimão. A minha ultima visita ao sítio foi no mínimo revoltante, resolvendo deste modo escrever e reflectir um pouco sobre o sítio.
Já conhecido da comunidade científica há bem mais de um século e com características de grande interesse, este sítio não tem tido o devido tratamento e agora durante a minha ultima visita a situação era gritante, deparei-me com o arqueossítio completamente infestado de ervas daninhas crescidas no meio dos preciosos mosaicos e cobrindo toda a estação. Talvez alguém até lhes tenha dado herbicida, pois estas apresentavam-se secas, mas, para a protecção deste tipo de património, o que conta é a prevenção, evitar-se a todo o custo que surjam as ervas e não matá-las já depois de crescidas, ou seja, já depois de ter causado estragos.
Outro facto interessante foi não terem removido ou cortado cuidadosamente a “flora” da Villa romana da Abicada, mas sim ter deixado ficar o matagal seco a ocupar todas as áreas como as fotos ilustram.
Apelo, deste modo, à Câmara Municipal de Portimão e ao IPPAR que se realizem intervenções urgentes naquela preciosa villa romana, antes que se perca e passe apenas a constar nos manuais de história de Portugal e da romanização da Península É certo que com a área envolvente e o complexo de criação de gado existente logo nas proximidades do sítio é difícil criar um espaço atraente para a visita do “grande público”, mas o abandono e o desleixo não são solução. Caso este estivesse aberto ao público, dada a fragilidade do sítio também havia que ser tomada em conta uma limitação do número de visitas. Trata-se de um dos complexos de villae mais interessantes que se conhece no nosso país, quer pela disposição do conjunto e soluções apresentadas, necessita de ser preservado. A revisão dos estudos com vista a causar uma nova projecção do sítio na “cena” arqueológica e cultural, pode ser uma boa forma para que não acabe por cair por completo no esquecimento e gerar novo interesse. Novas publicações e estudos aprofundados, ou mesmo sondagens arqueológicas trariam a Abicada de novo a uma posição mais segura para a sua preservação.
A imagem que a villa da Abicada passa aos seus poucos visitantes em nada contribui para os nossos órgãos de gestão, preservação e divulgação do património histórico-cultural. Que opinião levarão os visitantes estrangeiros que visitam a Abicada? O que dirão eles no seu país acerca daquele pequeno sítio arqueológico que visitaram? O que dirão eles das nossa instituições que gerem e garantem a preservação do Património Cultural?
E no concelho de Silves? Onde está o seu património de época romana? Será que já ultrapassou o estado da Abicada? Deixo estas questões para reflectir.

6 comentários:

manuel castelo ramos disse...

O sítio romano da Abicada é uma das maiores vergonhas e prova evidente da inépcia dos organismos competentes àcerca da defesa do nosso património. Há cerca de 21 anos realizei um trabalho académico sobre a Abicada durante o qual desenhei, tessela a tessela, um dos compartimentos da villa. Desde aí vi passar vários "arqueólogos" por ali, mas não vi uma única atitude coerente quanto à preservação e reabilitação deste arqueosítio. Mesmo a cópia do desenho que realizei gratuitamente e doei ao Museu de Portimão, se perdeu nos meandros desta triste história. E já lá vão muitos, muitos anos, desde que Estácio da Veiga a identificou, e José Formosinho a escavou!

Marisa disse...

Finalmente um novo post Marco! Valeu a pena o tempo que esperei ansiosa para ler o que escreves.
Interessante e triste o que revelas...
O nosso Património parece que só é "protegido" pelas ervas daninhas.

Australopithecus XXI disse...

Infelizmente isto acontece em todos os lados.
É uma mentalidade mesquinha complementada com uma grande miopia cultural, que não deixa alguns pesquisadores perceberem que os sítios arqueológicos não servem somente para dissertações de mestrados e doutoramentos.
É extremamente necessário interagir o espaço com a população local e com o povo em geral.
Um abraço

Anónimo disse...

Neste país de marinheiros, falar de História é falar de caravelas e descobrimentos. Vasco da Gama é nosso, é portugues, mas quem diabo é Augusto ?.Se fosse dado o mesmo valor ao passado romano, aquele que se dá aos descobrimentos, todos nós falava-mos latim.
Por isso, que importancia tem uns muros romanos em ruínas ? O que é que os portugueses tem a ver com isso.

Marco disse...

O caro amigo não deixa de ter razão no seu comentário, mas existem, infelizmente outros "patrimónios" mais desprezados que o de época Romana, e nisso inclui-se muita coisa da dita "época dos descobrimentos", veja-se o caso do Convento de Nossa Senhora da Esperança/Convento de São Francisco em Portimão bastante perto do futuro Museu... Dei este exemplo entre muitos outros existentes por este país fora.
Já agora perdoe-me a ousadia e quero corrigir o seu falava-mos pelo correcto falavamos.

Marco disse...

Um comentário adicional para não ser mal interpretado. Com o comentário anterior não quis dizer que o património de época romana está assegurado, caso estivesse o post que escrevi sobre a Abicada não faria sentido, mas sim que existem diversos vestígios de outras épocas históricas ou mesmo pré-históricas que estão votados ao abandono, entre eles icluem-se vários da época dos descobrimentos, o que acaba por demonstrar uma falta de sensibilidade para o património histórico em geral.