segunda-feira, novembro 08, 2010

O concelho de Silves na obra Arquitectura Popular em Portugal.


Farão em 2011 cinquenta anos que foi publicada a incontornável obra Arquitectura Popular em Portugal por meio do Sindicato Nacional dos Arquitectos, resultado do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa (em diante IARP) efectuado entre 1955 e 1960, este também promovido pela mesma organização sindical e subsidiado pelo Ministério das Obras Públicas através do decreto-lei 40349 de 19 de Outubro de 1955. Obra referencial porque para além de ser o primeiro estudo exaustivo do género no nosso país a abordar a temática da arquitectura vernácula, marca também uma importante viragem na maneira de pensar a disciplina. Desta feita vai-se procurar a “realidade do tradicional”, e não a tradição imposta, ou a tão teorizada “casinha portuguesa”, tipificada por região abrindo caminho a uma nova geração de arquitectos que não deseja praticar a “casinha portuguesa” nem arquitectura de feição internacional ou modernista. Surge assim no círculo uma corrente que funde a modernidade com as principais características populares da qual Francisco Keil do Amaral, também um dos impulsionadores e participante do IARP, procurava praticar.

Falar de Keil do Amaral e do IARP remete-nos para as origens deste projecto que era ambicionado desde os finais dos anos 40, tendo sido sugerida por este arquitecto em 1947 a realização de um inquérito na revista Arquitectura. Dois anos mais tarde, durante a sua direcção no Sindicato deu-se uma tentativa abortada devido à falta de apoios oficiais e quando em 1955 foi finalmente possível realizar Keil do Amaral juntamente com José Huertas Lobo e João José Malato cobriram a Zona 3 respeitante às Beiras.

A importância desta obra estende-se também à sua capacidade de traçar um panorama do estado da arquitectura num país ainda fortemente ruralizado e com pouca implementação das técnicas mais inovadoras de construção que raramente saíam dos núcleos urbanos. É também de fazer notar a ironia que os resultados deste inquérito trouxeram ao seu financiador, o Estado através do Ministério das Obras Públicas, pois procurava-se neste estudo um “valor prático para o desejado aportuguesamento da arquitectura moderna no nosso país”, conforme vem sugerido no decreto-lei atrás referido, o que se revelou ser infrutífero. Ao contrário, percebeu-se ser impossível descobrir uma arquitectura nacional unificada na medida em que cada região lida de forma diferente com as soluções e materiais aplicados tendo em conta os factores climatéricos, geográficos ou de disponibilidade de matéria-prima, existindo desta forma uma disparidade de situações e não a desejada coesão nacional.

O Algarve pertencia à Zona 6, que abrangia também parcialmente a faixa costeira do Sudoeste Alentejano e alguns pontos de contacto do Sul desta região com o Algarve, como os concelhos de Ourique, Almodôvar ou Castro Verde. O levantamento da Zona foi da responsabilidade de Artur Pires Martins, Celestino de Castro e Fernando Torres e os resultados figuraram no segundo volume da Arquitectura Popular em Portugal (III volume na 3ª edição de 1988, a consultada para este artigo) em mais de cem páginas onde não faltaram uma introdução geográfica, estudos de caso, uma abordagem à estrutura urbana, as condições climáticas e matérias-primas disponíveis, entre outros parâmetros necessários à compreensão das opções arquitectónicas para cada região/sub-região.

O que importa a este artigo é o património oriundo do concelho de Silves presente nesta obra, do qual não farei menção a todas as alusões ou referências, pois são bastantes, mas sim às que julgo mais significativas ou de carácter específico para a área geográfica em questão.

A primeira alusão que me parece significativa para o concelho de Silves, e que foi até caso de estudo nesta obra é feita à povoação de Fontes da Matosa, claro está, muito diferente da actualidade, onde os autores procedem a uma necessária descrição da aldeia. Referem-se ao modo como se implanta no terreno e frisam a importância que esta teria enquanto ponto de ligação entre Silves e Alcantarilha. Para um completo estudo da arquitectura, os autores não se ficaram pela descrição das casas, pois abordaram a importância da implantação de Fontes da Matosa “encravada entre as propriedades circundantes”, pronta a fornecer e abrigar a mão de obra. A existência de dois poços e um forno comunitário, em redor dos quais se desenvolveu o casario, é outro dos pontos frisados. Como é referido, também o abastecimento de água seria fraco, logo aqueles dois poços seriam da maior importância para a aldeia, constituindo com o forno uma área funcional comunitária que define a organização do espaço. Fontes da Matosa seria uma aldeia que acolheria os trabalhadores das propriedades em redor, um conjunto de casas modestas de telhados de duas águas, com os vãos voltados para o largo e sem logradouros posteriores. Construídas essencialmente com matérias-primas autóctones, à excepção das madeiras, estas segundo os autores na sua maioria provenientes da Serra de Monchique. A austeridade das casas traduza-se também nos vãos onde, na maior parte dos casos, as portadas das janelas não teriam sequer vidros.

Outro exemplo interessante abordado nesta obra é o da especificidade territorial dos conjuntos de eirado e cisterna que se circunscrevem apenas às freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines, Tunes e Porches, esta última do concelho de Lagoa. Um dos exemplares apresentados nas figuras para ilustrar estes aspectos é proveniente da aldeia da Amorosa. Hoje em dia será conveniente explicar aos leitores o que é um eirado, recorro assim às palavras dos autores; “Se não é suficiente a água recolhida, recorre-se então ao eirado, que consta dum vasto terreiro, ao nível do terreno, revestido com ladrilhos e com declives para encaminhar a água das chuvas para um pequeno orifício, que comunica com o interior da cisterna, de onde será tirada por meio de uma boca semelhante à dos poços.

Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superíicie exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraços, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.”

Na secção destinada a mencionar as principais matérias-primas e sua proveniência temos exemplos vários, desde a nossa bem conhecida Grés de Silves, ou Arenito Vermelho, bem presente na faixa Silves/Messines, assim como os calcários e argilas do barrocal, ou mesmo o fabrico e aplicação da telha de canudo proveniente das Taipas, um topónimo sugestivo na freguesia do Algoz. Surge também ilustrada a construção em taipa no Monte das Pitas, técnica que hoje em dia caiu em desuso devido à maior utilização da alvenaria de tijolo e cimento.

O concelho de Silves forneceu ainda outro caso de estudo para esta obra, a casa da Ponte de Santo Estêvão, à beira da E.N. 124, ainda hoje existente e habitada, onde se observou a construção em desníveis aproveitando o declive do terreno e o afastamento da área funcional e de criação dos animais, donde consta o forno, os pombais/galinheiros e a eira, emementos bem destacados da área habitacional.

Antes de terminar vou abordar o mapa tipológico delineado pelos autores no sentido de demonstrar genericamente o tipo de habitação praticada na área de estudo. Nesta área geográfica do concelho de Silves observou-se que as tipologias mais habituais eram as denominadas Habitação no Baixo Algarve e a do Algarve Central. As principais características da Habitação do Baixo Algarve seriam a cobertura de uma ou duas águas, mais comummente a segunda opção, com ou sem chaminé, a alvenaria de taipa, pedra ou tijolo e os pavimentos em tijoleira ou terra batida. Nas áreas funcionais e destinadas aos animais poderíamos encontrar forno, estábulo, pocilga e galinheiro. A habitação do Algarve Central difere essencialmente pela utilização de cobertura mista de telhado e açoteia utilizável, alvenaria de calcário, tijolo ou taipa e habitualmente os vãos seriam guarnecidos a cantaria.

A Arquitectura Popular em Portugal reveste-se de considerável importância por contar com uma forte componente de registo fotográfico e desenhos, que para além de ilustrarem bem os conteúdos, permitem-nos avaliar o que se passou nos quase 50 anos que nos separam do lançamento da obra e constatar a riqueza da arquitectura popular que se praticava no Algarve rural até meados do século XX, assim como nos exemplares ainda existentes e habitados, o que foi descaracterizado ou adaptado. O levantamento serviu na época como ponto de situação da arquitectura vernácula e tornou-se obra de referência para as gerações futuras, assim como um registo básico das matérias-primas e soluções construtivas. Um excelente ponto de partida que ainda hoje nos motiva a saber mais sobre o tema.


2 comentários:

Renata Vitória disse...

Boa tarde, estou a fazer um trabalho sobre arquitectura popular, sabe-me dizer a morada da casa da ponte de Santo Estêvão?

Marco Santos disse...

Boa tarde Renata,

A morada ao certo não lhe sei indicar, mas posso enviar-lhe as coordenadas do Google Earth, se isso ajudar:

Latitude: 37°12'36.88"N
Longitude: 8°23'12.63"W

A casa fica localizada junto à Estrada Nacional 124, à esquerda logo após a ponte de Sto. Estêvão, isto se fôr no sentido Silves - Messines. Deve distar uns 4/5 km da cidade.

Espero que as informações lhe sejam úteis.