domingo, maio 17, 2009

Medronho: Património Material e Imaterial


Medronhos, originally uploaded by Marco Santos.

Com o aumento das preocupações das condições de higiene e saúde publica e a crescente subida de taxas e impostos, assim como por causa dos incêndios florestais desta década, muitos pequenos produtores existentes na serra têm vindo a findar os trabalhos de cuidado das terras e apanha do fruto e as suas pequenas produções de aguardente de medronho. Nesta pequena reflexão coloco de parte as questões económicas e de mercado por não dominar as áreas, e debruço-me sobre a questão patrimonial nas suas vertentes material e imaterial, esta última dos saberes e experiências de quem participa no processo.

A apanha e produção tradicional têm sofrido um grande decréscimo, logo as pequenas estruturas de produção têm vindo a ser muitas vezes abandonadas ou mesmo desmanteladas, e os terrenos serranos muitas vezes votados ao abandono, o que propicia o aumento do risco de novos incêndios por deixarem de ser limpos e cuidados. O processo de fabrico da aguardente de medronho, desde a apanha à destilação é desconhecido de muitos, nomeadamente das camadas mais jovens, meios urbanos ou então de turistas. Certamente quem toma contacto com uma bebida tem curiosidade de saber qual a sua origem, processo de fabrico e ingredientes e neste caso não será excepção. É por isso necessário salvaguardar a actividade na sua forma mais “tradicional” e proporcionar o contacto do público em geral com esta. Sendo o meio serrano do nosso concelho conhecido há décadas por ser um habitat propício ao desenvolvimento dos medronheiros, pela qualidade do fruto e claro está pela produção da aguardente nas várias pequenas destilarias seria interessante preservar pelo menos uma destas unidades de produção, as destilarias, de forma a que fique funcional, assim como a recolha de testemunhos de antigos produtores ou se possível o acompanhamento e registo do processo de produção tradicional. Os processos, as vivências da apanha, fermentação e destilação, as histórias e crenças ligadas à actividade, são todos dignos de registo. A imprensa já se tem debruçado sobre a produção de medronho algumas vezes, mas esta “tradição” carece de estudos aprofundados e sobretudo de registo e salvaguarda, pois este tipo de conhecimentos e métodos vão-se diluindo com o passar do tempo. Seria interessante, por exemplo, a realização de um documentário televisivo que abordasse esta temática e que pudesse ser exposto em stands da região de turismo, espaços culturais do concelho ou possível de visionar através de um canal na internet. As técnicas construtivas das destilarias seriam também um interessante alvo de estudo que poderia ajudar a compreender melhor a produção. A ligação a outras actividades como o trabalho dos metais para a construção dos alambiques e outros acessórios ou o trabalho do tanoeiro são também fundamentais para entender esta antiga arte. É uma actividade que representa a serra algarvia e cujo produto final tem ganho estatuto, embora haja ainda muito trabalho a fazer para dar a conhecer o método em que é feito há décadas e torná-lo um bom motivo para uma ida à serra.

1 comentário:

Anónimo disse...

Fiquei sensibilizada com este artigo, uma vez que o meu pai fazia medronho, ainda eu era pequena. Lembro-me da destilaria, um edíficio altissimo, ou assim me parecia pelos meus 4/5 anos, muito escuro e com a caldeira de cobre a fumegar.
Ainda hoje guardo essas memórias como sendo das mais belas da minha infância, bem como o riacho que passava ao pé da destilaria.

Obrigada por este artigi, foi uma boa surpresa.

Ana Paula